terça-feira, 29 de junho de 2010

entrevista com Nando Reis


(originalmente publicado no Brasil Econômico, 25/06/10)

"Torço muito para uma final Brasil e Argentina. Seria a glória"

texto Phydia de Athayde

ABRE:

"A guerra da imprensa com Dunga é uma babaquice"

Sem hipocrisia. “Bicho, sou rock’n’roll”, apresenta-se, explica-se e justifica-se o músico, são-paulino e apaixonado por futebol, Nando Reis. Ele falou isso quando comentava que, apesar dos 47 anos, continua tendo hábitos não exatamente saudáveis. Dorme tarde, gosta de beber, fuma cigarro sem filtro. Mas a frase serve também para reclamar da imprensa e do excesso de “tecnologização” de nossas vidas. Também para dizer que, apesar de ter Twittter (com 99.756 seguidores), site e blog, Nando acredita mesmo é nas relações humanas, que se dão na vida real e não no computador. Olho no olho, viscerais.

E ele sabe do que está falando. Privilegiado, viveu todo o excesso, orgia e megalomania da fama e do rock’n’roll, como integrante dos Titãs, ícone dos anos 80.

Ruivão, magrão e figurão no palco, Nando criou ou colaborou na concepção de algumas das músicas mais importantes do grupo — e que marcaram uma geração. Marvin, Homem Primata, Igreja, Bichos Escrotos, Diversão, entre outras.

Se sabia extravasar com o rock, Nando também sempre soube colocar em melodias o lado mais doce e poético da vida. Compôs para a então namorada Marisa Monte a delicada Diariamente, no início dos anos 90. Ao lado dela e de Carlinhos Brown, foi premiado pelo APCA_como melhor compositor pelo álbum Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão, em 94.

Mesmo nos Titãs, gravou seu primeiro disco solo (12 de Janeiro) em 95, que estourou com a singela e apaixonada Me Diga. Continuou compondo para o grupo, para si e em parcerias como a com Samuel Rosa, do Skank. Também produziu artistas como Vange Leonel e Maskavo Roots, e teve uma relação especial com Cássia Éller.

Com a cantora, Nando viveu uma amizade intensa e uma parceria profícua, que resultou no disco Com Você...O Meu Mundo Ficaria Completo, de 98, produzido por ele, e no MTV_Acústico de Cássia Éller, de 2001, com sucessos dele na voz dela, como E.C.T., Segundo Sol e Relicário, esta, cantada pelos dois juntos.

A morte de Cássia logo após o disco, e também a do Titã Marcelo Fromer, ambas em 2001, detonaram um processo depressivo que culminou em sua atribulada saída dos Titãs, em 2002. As coisas ainda levariam alguns anos para voltar ao lugar.

A carreira solo prosseguiu com A Letra A (2003) e MTV ao Vivo — Nando Reis & Os Infernais (2004), embora o próprio admita que sua vida pessoal é que andava meio infernal demais, por conta do abuso de drogas e do álcool.

O_segundo sol chegou em 2006, quando Nando reencontrou sobriedade e lucidez, além da amizade verdadeira com os Titãs. Lançou seu oitavo solo, Drês, no ano passado, com 12 inéditas, e prepara um próximo álbum só de covers-homenagem. De Wando a Guilherme Arantes e Roupa Nova. Isso que é rock’n’roll.

ENTREVISTA:

Como é para um são-paulino não ver ninguém do seu clube na seleção?

É a primeira vez. Tem um lado meio bobo nos critérios adotados, até pelo Dunga, de que quem joga lá fora é melhor do que quem joga aqui. É ridículo, como se fosse uma chancela de qualidade que na prática não é realidade. Mas, curiosamente, dois atletas que serão para sempre vinculados ao São Paulo estão lá e fizeram a diferença, o Luís Fabiano e o Kaká.

E que tal esse time?

Tem tudo para ganhar a Copa. Eu, que não sou apreciador do Dunga, entendo os critérios dele. Tem muita coisa dentro de um trabalho de grupo que só quem está dentro sabe como é. Posso citar, num paralelo, o que acontecia com os Titãs.

Aquilo de que um grupo unido é melhor do que um com novos integrantes?

Sim, e isso não pode ser contestado por quem está de fora. Nesse sentido, o Dunga tem muita coerência. Os clichês que ele usou, sobre comprometimento, não parecem ter sido algo da boca para fora. Já no segundo jogo deu para ver que há uma força nesse time. Deu para sentir uma cumplicidade ali. Não estou lá, e acho essa guerra da imprensa com ele uma babaquice.

Ele ter xingado um jornalista?

Bicho, isso é meio ridículo, uma questão até de educação. Mas não que o pessoal seja muito fino.

Os jornalistas é que provocam?

Não sei. Mas, posso falar? Conheço jornalista, é uma racinha também. Puta saco de gente que só vai pegar na ferida, só prefere a notícia maledicente. Claro que não são todos, mas a tônica da imprensa brasileira é sempre pegar o ponto fraco e bancar o forte ao apontar para o mundo a grande falha. É chato pra cacete. Não estou aqui para defender o Dunga, e talvez ele não tenha mesmo habilidade para isso. Estamos falando sobre essa relação da imprensa. O clima lá deve estar horroroso, péssimo. Mas essa disputa para mim, como torcedor, não interessa. Ela polui totalmente os jornais, as matérias na TV. E há um excesso de cobertura também. Detesto isso de vigiar todo mundo 24 horas por dia com 40 câmeras.

Já o Maradona dá um show por dia. O que você acha dele?

Adoro. Tem toda a tragédia, a forma como a Argentina se classificou. Ele é muito representativo desses altos e baixos, e é muito carismático. Com aquela barba branca, aquele cabelo, aquele terno em que parece o Mini Me (anão do filme Austin Power) e, ao mesmo tempo, é um gigante. No segundo jogo, deu aquela matada de letra, a bola morreu ali e ele, impávido, olhou como se não tivessem bilhões de pessoas vendo que ele fez algo genial, com uma técnica que 80% dos jogadores da Copa não têm. Adoro ele. Enquanto a Argentina está ganhando, está ótimo. Torço muito para a final ser Brasil e Argentina. Seria a glória.

Você é dos que querem que a Argentina ganhe?

Claro que não. Sempre quero que o Brasil ganhe. Seleção é seleção, não é o meu time. Com o meu time, tenho uma relação diferente. Sou um torcedor apaixonado pelo São Paulo, acompanho tudo, vou aos jogos. É diferente. A seleção eu gosto, e adoro Copa. Estou gostando dessa, mesmo com nomes que não me agradam.

Se pudesse tirar três e colocar três, quais seriam?

Tiraria Gilberto Silva, Kleberson e Felipe Melo. Colocaria Ganso, Hernanes, e teria chamado o Ronaldinho Gaúcho. Ele nunca voltou a ser o que foi um dia, mas é um craque. Gosto de gente com um pouco mais de refinamento técnico. O Pato é outro. Mexeria nessa área.

Como você assiste aos grandes do futebol tropeçando?

Com alegria (risos). Torço contra. Nunca gostei da Espanha. Para mim, favorito é quem já ganhou Copa alguma vez. A Espanha ganhou? A Holanda ganhou? A França, então, não tinha nem que ter entrado. E sai do mesmo jeito que entrou: feio. É bom, para a Fifa ver que não adianta entrar roubado, numa repescagem, com um gol de mão, uma raquetada daquelas.

Apesar dos protestos, a Fifa deixou claro que não pretende usar tecnologia para esclarecer erros de arbitragem. O futebol tinha que incorporar auxílios, como o chip na bola, câmeras para atestar impedimento, ou é mais romântico deixar como está?

(Suspira) É muito louco. A graça do jogo é que ele é uma espécie de metáfora da vida. Em parte, concordo com a Fifa: tem de ter um componente de subjetividade, até mesmo de uma certa injustiça, porque a vida não é assim tão exata. O juiz também faz parte do jogo. Ele tem que ter o mesmo grau de humanidade dos jogadores, poder errar ou acertar. Se o entrar todo paramentado com câmeras e chips, pode descaracterizar não apenas o sentido romântico do jogo, mas humano. O juiz ter autoridade, sendo um sujeito que pode errar, parece um contra-senso mas é talvez o grande charme do futebol. Não por nostalgia, mas um dos aspectos mais interessantes do futebol é justamente essa relatividade, essa subjetividade do que vale ou não vale. Eu ficaria muito (enfático) triste se o gol do Luís Fabiano tivesse sido anulado (no segundo jogo, dominou a bola no braço depois de dar dois lençóis no adversário). Se a gente for analisar cada cobrança de escanteio em câmera lenta, não tem jogo. Ou, então, vai demorar três anos para todos se reeducarem por causa da tecnologia. Não estou disposto a perder três anos de futebol. Estou de saco cheio da tecnologia.

Parece que esse sentimento extrapola o futebol, é isso?

Estou de saco cheio desse mundo em que todo mundo vê tudo, sabe de tudo, escreve tudo. Da tecnologia, dessas redes sociais onde as pessoas têm uma impostura de identidade. Ao mesmo tempo que isso está associado à velocidade e à liberdade, tem um outro lado. Há uma esquizofrenia oficializada nesse mundo onde as pessoas se encontram sem se conhecerem, vivem sem saírem de casa. É doentio, não é saudável. Não pertenço a esse mundo. Não são relações humanas, são relações esquizofrênicas. Twittar sobre os assuntos que estão acontecendo na hora me dá enjoo. É muita neurose, vaidade demais.

Há um deslumbramento com as redes sociais, não?

Vai além disso. Como tudo é muito rápido, substituível, e estão todos acostumados com isso, eu, por ter 47 anos e ser do século passado, não entendo. Não gosto. Embora, é claro, dialogue e conviva com isso. Não estou dizendo que a gente deva voltar a mandar carta pelo correio, nem que tudo é uma droga, mas essa ideia de que só há benefícios não me convence.

Encerrando o assunto futebol, o que você achou da CBF excluir o Morumbi (estádio do São Paulo) da Copa 2014?

É uma tremenda questão política. Tem uma indisposição do Ricardo Teixeira (presidente da CBF) com o Juvenal Juvêncio (presidente do São Paulo). O Ricardo Teixeira oficializar isso, lançar essa bomba no meio da Copa, enquanto a atenção está totalmente desviada, sendo que o próprio Jérôme (Valcke, secretário geral da Fifa) disse que nada seria decidido durante essa Copa... Quer saber? Vai ser uma roubalheira, uma vergonha a Copa no Brasil. Sou contra, embora como torcedor tudo que sempre quis é assistir a uma Copa do Mundo. Acho ridículo. Mas, resumindo: para mim, cada estádio (a ser construído) é um bolsão de corrupção onde o Ricardo Teixeira deve organizar sua malta de larápios para pegar dinheiro onde der. E como ali, no São Paulo, tinha uma coisa diferente...

Um dinheiro mais controlado?

Como eles viram que no São Paulo seria mais controlado, pensaram: “Aqui a gente não vai pegar dinheiro? Então não vai dar.” Então é isso: política. Política de ladrões (enfático).

Passemos, então, para um tema menos obscuro. No que você está focado agora, tem álbum novo a caminho?

Vou gravar um DVD, que deve sair em outubro. Até agora, o apelido dele é Bailão do Ruivão, porque em toda a minha carreira solo, venho colocando nos bises dos shows músicas que gosto de tocar. São quase pequenas homenagens, coisas que gosto e que fogem do estereótipo rock’n’roll. Whisky a Go-go, do Roupa Nova, Lindo Balão Azul, do Guilherme Arantes, Muito Estranho (Cuida Bem de Mim), do Dalto, Fogo e Paixão, do Wando. Fiquei animado em gravar. Por outro lado, no ano passado lancei o Drês, com 12 inéditas, um disco lindo, que adoro... É cada vez mais custoso fazer um disco.

Você diz por grana?

O custo emocional. Entrar no estúdio, tirar de dentro de si aquelas 12 músicas, entrar em turnê e lançar é um processo exaustivo. Ao mesmo tempo, é muito frustrante que o mercado tenha se encolhido a tal ponto que não acontece nada. Não aconteceu com o Drês. A música que estourou, Pra Você Guardei o Amor, era tema de um casal da novela das seis (Cama de Gato). Resolvi que não vou gravar outro de inéditas. É preciso intercalar, porque tenho uma sensação de desperdício.

Como é o seu processo de criação, flui ou tem de ser induzido?

Cada vez mais, tenho de me esforçar mais para compor. Além da demanda de trabalho, tenho uma dúvida comigo mesmo: “Será que vou conseguir compor uma próxima melodia que me agrade?”. Não acho que exista essa garantia. Ao mesmo tempo, olho para o que fiz e sei que tenho essa capacidade.

Você teve uma parceria muito marcante com a Cássia Eller. Como foi?

Incrível. Um encontro muito especial. Convivi muito com ela em 97, quando estava no Rio gravando com os Titãs. Passamos muitas noites juntos, só os dois, tocando violão, conversando e rindo muito. Isso criou uma relação de trabalho que é das coisas que mais gosto, e que já tinha feito, em parte, com a Marisa Monte — com quem eu trabalhei, a gente namorou, compôs junto — e com a Vange Leonel, de quem fui produtor, com o Charles (Gavin). Sempre quis trabalhar com cantoras como produtor e diretor musical.

Qual é o barato?

Estar à sombra. Ser iluminado por uma estrela que é uma força solar. Voz de mulher é a coisa mais linda que existe.

Com quase 30 anos de estrada, você viveu momentos bem distintos do mercado da música. Como enxerga cada um?

Assisti àquela orgia, a megalomania dos anos 80. Depois, nos 90 mudou um pouco, apareceram os selos e surgiram grandes artistas com isso, o Planet Hemp, o Raimundos. Nos anos 2000 começou aquela dançada. Os executivos não se deram conta do que estava acontecendo com a internet. Muito preocupadas em combater a pirataria vendida nas esquinas, as gravadoras não se deram conta de que havia algo irreversível. Acharam que o inimigo era um, mas não era, e perderam quase todo o direito da reprodução da música.

E como você lida com o fã que baixa sua música na internet?

Me comunico com ele, não tem como. Tenho um site, 100 mil seguidores no Twitter. Um monte de gente se relaciona com meu trabalho pela internet, tanto que meus shows estão cheios, mas meus discos vendem pouco porque não há mais mercado de disco.

Voltando ao Titãs. O grupo enfrentou a perda do Marcelo Fromer (morto em 2001, atropelado), a sua saída (em 2002), antes, a do Arnaldo Antunes (em 1992) e, no entanto, hoje parece que vocês são muito amigos. Quanto disso é verdade?

Faltou a saída do Charles (Gavin, há quatro meses). Mas é 100% verdade, embora a nossa amizade tenha mudado. Coincidentemente, encontrei os três agora, Branco (Mello), Paulo (Miklos) e (Sérgio) Britto, indo para o Rio. Pegamos o mesmo avião. Foi adorável. Em dez minutos e é como se eu tivesse estado com eles ontem. Claro que na minha saída a gente viveu dois anos estremecidos. Hoje, teria evitado meia dúzia de atitudes tolas que tomei, mas a gente relativizou tudo, e vamos guardar a grande história que temos. Uma das coisas fundamentais para que tudo de fato se acalmasse foi quando o Branco lançou o documentário, dele e do Oscar Rodrigues Alves, que conta a história linda dos Titãs (A Vida Até Parece uma Festa, de 2009). Depois de um filme daqueles, todas as picuinhas se tornaram completamente irrelevantes.

Como você vê as bandas de rock atuais?

Detesto essa pergunta, não respondo. Não nasci para ser crítico. (Hesita muito) Ainda espero uma banda que me desconcerte. Cada vez mais, ouço o que gosto. Semana passada fiquei a tarde toda ouvindo Gil & Jorge, que é de 75, um dos discos mais importantes a construção do que sou. Sou um reouvinte muito mais que alguém ávido por novidades, até porque tem 40 milhões de bandas hoje. A última com que de fato chapei chama-se Fleet Foxes (folk indie dos EUA), e eles lançaram o primeiro disco dois anos atrás.

O Arnaldo Antunes, no último disco, fala de uma forma bem particular sobre o envelhecimento. Como está sendo para você?

Tem a parte boa e a ruim. Fisicamente estou muito bem ainda, até melhor do que há 15 anos. Faço academia cinco vezes por semana e, ao mesmo tempo, continuo com hábitos selvagens: durmo tarde, gosto de beber, fumo cigarro sem filtro. Bicho, sou rock’n’roll. Embora tenha 47 anos, me sinto muito jovial. A juventude é muito mais a satisfação com a idade que se tem. Velho é quem sente necessidade de ter uma idade que não têm. Por mais que eu tenha saudades da vida incrível da adolescência e da juventude, a angústia que vivi, e não vivo mais, faz com que eu seja feliz com a idade que tenho. Essa é a compensação, porque há perdas inegáveis. Tinha um cabelo lindo que hoje é uma lembrança do que foi, hoje tenho que fazer força para manter a saúde.

Como é ser pai de adolescentes e jovens adultos?

E também sou avô. Tenho uma neta, Luzia, de 3 meses, filha do Theodoro, que tem 24 anos. Me sinto mais seguro para lidar com a adolescência, um período supercomplicado na vida de qualquer pai (risos). Na terceira (Sophia tem 21 anos, Sebastião, 15, e Zoé, 10, todos do casamento com Vânia), talvez não me confunda tanto quanto antes. Mas é uma delícia. Adoro meus filhos, admiro meus filhos. Lamentavelmente não convivo tanto com o Ismael (de 3 anos, da relação com Nani), que mora em São Leopoldo (RS).

Agora uma pergunta a ser feita para todo roqueiro. Como foi e como é a sua relação com as drogas?

O problema das drogas é que elas são deliciosas. Algumas delas me proporcionaram momentos maravilhosos de inspiração, de bem-estar. Porém, elas viciam, elas detonam, elas vão perdendo o efeito. É perigoso. Não existe só o bem-estar. Há uma alteração de consciência que pode ser muito perigosa, e isso é muito individual. É natural os jovens se atraírem, é quase natural eles se envolverem, e não sou hipócrita de falar que é ruim apenas. É muito perigoso. _É preciso dizer: “Cuidado”. Tive momentos muito ruins, já me senti muito dependente. Abusei das drogas. Quase arruinei minha carreira por causa delas. Fiz apresentações constrangedoras por estar bêbado e drogado, e sempre tenho vontade de pedir desculpas para as pessoas que pagaram ingresso e me viram naquele estado. Pessoalmente, vivi o auge e os momentos ruins. E esse equilíbrio, que procuro ter na minha vida, é uma receita que cada um tem que descobrir sozinho.

MAKING OF:

Foi a primeira vez que entrevistei alguém sem sapatos. Caso contrário, jamais me acomodaria suficientemente bem naquele sofá enorme e fofo, onde passei o jogo Espanha X Honduras conversando com Nando Reis, na casa dele, no Pacaembu, em São Paulo. Apesar de pedir para deixar o telão (uma TV LCD gigante) ligado, ele quase não olhou para a partida. Atencioso, acostumadésimo a ser entrevistado, falou de tudo e sem medo. Nando gesticula à beça, solta mil palavrões e constrói racioncínios longos para, no fim, completar a ideia com uma caetaneada do tipo "ou não". É vivido, é rock'n'roll, enfim, um cara legal.


segunda-feira, 14 de junho de 2010

entrevista com a Céu


(originalmente publicada no jornal Brasil Econômico, 12/06/10)

"Ninguém me coloca na MPB. Nem eu"

ABRE:

Assim que falou isso, Céu caiu numa risada. Mas é melhor mesmo explicar a música dessa garota começando pelo que ela não é. Não é MPB, ainda que seja (boa) música popular brasileira. Não é pop, ainda que tenha chegado ao badalado ranking da Billboard. Não é samba, nem reggae, nem jazz, nem soul, nem hip hop, nem eletrônica — mas, nesses casos, é um pouquinho disso tudo e mais outro tanto de coisas. Por ser “uma colagem do que sou”, como diz, a música dela consegue soar brasileira, mas não muito, e agradar não só brasileiros mas também europeus e norte-americanos, já que a carreira dela nunca foi caseira.

Céu nasceu em São Paulo há 30 anos, em uma família de artistas. Ganhou o nome Maria do Céu em homenagem à lavadeira portuguesa que cuidou de seu pai na infância. Com ele, o compositor, maestro e arranjador Edgard Poças (criador do sucesso dos anos 80 A Turma do Balão Mágico), conheceu a boa música desde pequena. Da mãe, a artista plástica Carolina Whitaker, ouviu sempre que, se quisesse mesmo ser cantora, não precisava fazer faculdade e, sim, botar a “mão na massa e trabalhar”.

Ela nunca foi boa aluna, “era muito avoada”, e flertou com a carreira de desenhista, mas aos 15 anos estava certa de que queria é cantar e começou a estudar enquanto fazia jingles para o rádio. Aos 18, foi para Nova York passar seis meses e ficou um ano. Lá, começou a compor, estudou a pegada do jazz na voz feminina e ralou como faxineira, garçonete e office-girl. De volta ao Brasil, serviu mesas no restaurante Spot, na capital paulista, e foi se aproximando gente interessante na música, como a turma dos pernambucanos herdeiros do manguebeat. Nesse ambiente diverso e criativo conheceu seu marido, o produtor musical Gui Amabis — irmão de Rica, do coletivo musical Instituto.

Em 2005, lançou CéU e com ele veio uma legião de fãs apaixonados. Não só pelo som envolvente, mas pela naturalidade com que ela rebola, com as pernas de fora, sem jamais ficar vulgar. Aliás, ela não rebola: cai na roda da malemolência, como diz numa das canções. Dois anos depois, o disco de estreia saiu nos EUA e o impacto foi o mesmo, sempre nesse universo mais cool. Céu é meio despreocupada, e muito intuitiva. Sem pressa, parou a gravação do segundo álbum para “virar bichinho” e cuidar da filha, Rosa Morena, que acabara de chegar.

No fim de 2009 saiu Vagarosa, com participações de Luiz Melodia, Curumin, Catatau, BNegão e, sempre, dos pernambucanos. Mistura boa. A turnê começou nos EUA e veio, devagar, para o Brasil. Agora, segue para a Europa e ainda vai voltar para cá, quando a Universal relançar o disco no país este ano. Céu está apenas começando, bocejando, espreguiçando. Aproveitemos.


ENTREVISTA:
Sua carreira é relativamente curta, ao passo que você faz muitos shows no exterior. Como isso aconteceu?

Veio do selo, a Urban Jungle, eles se propuseram a ser sócios do disco e me representar fora do Brasil. “Você faz tudo do seu jeito e a gente te representa lá fora”, e aconteceu. Gosto muito, e agradeço, porque não é fácil viver de música, fazer a música que se quer. As pessoas olham com glamour o fato de eu viajar muito, mas é o maior perrengue. Imagine que eu não conhecia a Europa quando fui tocar lá a primeira vez. É uma conquista irmos todos nós (da banda), alguns dos meninos nunca tinham andado de avião, sabe?

Como foi tocar agora no (prestigiado festival de rock) Coachella, nos EUA?

Demais, uma experiência incrível. É um público bem pop-rock, algumas pessoas até me conheciam, mas, imagine, eu estava lá no meio do Thom Yorke, do Gorillaz, do MGMT, todas essas coisas bombadaças. Toquei na mesma hora do Jay-Z, às 11h da noite, entramos eu, o Jay-Z e a Beyoncé (risos). É muito legal ver todo tipo de gente, todo mundo muito propenso a estar feliz. São três dias de shows intensos, muita banda boa. Não tem quem não goste.

E você falou de roubadas, que tipo de apuros você passa nessas turnês?

Um monte, um monte... É basicamente roubada (risos). Chega a ser engraçado porque a gente só se ferra. Na segunda vez que fui para a França, não falava uma palavra de francês e fui convidada para uma participação no rádio. Achei que seriam umas quatro músicas, no estúdio, mas cheguei lá e era numa casa de show lotada, ao vivo, para a França inteira. Não era estúdio, e eu estava de moletom (risos)! Foi muito engraçado, a gente mandou músicas que não tinha ensaiado, mas foi muito legal. E tem roubadas como chegar no hotel, estar nevando lá fora, e não ter aquecimento no quarto. Ou descobrir que não temos reserva, às 3h da manhã. Ou alguém fica gripado. É uma sucessão de coisas imprevisíveis.

Em que você acha que evoluiu dos seus primeiros shows até hoje?

Ganhei mais noção do palco, do espaço que eu estou e de como usá-lo. Existe toda uma sabedoria, não é só estar lá cantando. E tem a interação com o público. Essa rodagem me fez ficar mais madura no palco, e isso vale ouro. No começo, você sofre muito. Teve uma roubada boa que eu peguei, uma coisa forte. Tinha feito só cinco shows no Brasil — três na Galeria Ouro Fino (onde começou, no evento Coisa Fina), depois no Grazie a Dio (casa da Vila Madalena) —, e fui tocar no La Cigale, na França, que é uma casa milenar, tradicionalíssima, para pessoas que estavam lá para ver a Tânia Maria, uma super jazzista brasileira, imagina. Eu entrando com DJ e um monte de gente idosa na plateia. Tive que ir no feeling, fiz e foi legal pra caramba. Gosto desse cara a cara, aprendo muito.

O DJ é marcante no seu som, é quase um instrumentista. Como isso rolou?

O DJ (Marco) era meu amigo, fez parte do meu primeiro disco inteiro. Neste trabalho tem muito vocal, muito sopro, e não sabia como fazer tudo isso no show. Não dá para eu cantar e fazer o vocal, não dá para ter três backing vocals — porque uma fica esquisito, duas é pouco, três é caro (risos). Nessa mesma época tinha isso do hip hop, que sempre curti muito, o Jurassic 5... Todo mundo estava fazendo isso. O Beto Villares, que produziu meu disco, sugeriu, ele estava ali, é amigão, entrou pra família.

Como a sua banda se formou?

O Lucas (Martins, baixista) é amigo de mil anos, um cara que me entende muito musicalmente e foi um dos primeiros a investir na minha história, há um tempão. O Marco colocou a mão dele no som e vi que tinha ao meu lado não só um DJ mas um músico. O Bruno (Buarque, baterista) também conheço faz tempo e ele se mostrou não só muito talentoso mas bastante versátil, já usava MPC (processador de samplers) e recursos extras. E o Gui (Guilherme Ribeiro, teclado e acordeon) veio por indicação de amigos. São todos grandes músicos e amigos. Na equipe tem o técnico de som, o (Gustavo) Lenza, que também produziu o disco, viaja com a gente e é tour manager. A graça é a gente trabalhar feliz, com os amigos. Deixar as pessoas porem a mão na massa.

Você gosta dessas criações coletivas?

Gosto de bagunça, de todo mundo junto. Se começa a ficar muito formal, me incomoda. Sou muito desencanada, às vezes até demais. A gente é tão amigo que, na turnê, se minha filha está comigo e estou cansada porque acordei 6h da manhã e tem show à noite, não posso passar o som. Eles seguram a onda sem mim. Tem uma cumplicidade.

Sua gravidez veio numa fase muito ativa profissionalmente. Como foi?

Aconteceu. Posso dizer que dei uma vacilada (risos). A gente (ela e o marido, o produtor musical Gui Amabis) estava num momento super legal, tinha casado, namorava há muito tempo. Calhou, foi bem bacana.

Que mudanças a maternidade trouxe?

Um pedacinho meu não está aqui, está sempre pensando nela. E, putz, me sinto capaz de fazer muito mais coisas. Meio super mulher (risos). É incrível. E vem maturidade também, não tem jeito: os pingos vão para os is.

Existe o medo de não ser boa mãe?

Desde que a gente nasce, o medo é um cara que convive com o ser humano até o fim da vida. Às vezes toma proporções grandes, às vezes pequenas, o negócio é lidar com isso. Criar uma criança te faz enfrentar muito o medo, a culpa, porque a gente está trabalhando e pensando se devia estar em casa cuidando deles, mas é a vida. Na (música) Bubuia eu falo: “Não estamos aqui só a passeio, já que a vida não é recreio, vamos aí e assim será”. Quando me tornei mãe, vi que a natureza impõe uma questão biológica e natural da mulher. De voltar para um lugar do qual a gente está se afastando muito, que é o de ser provedora, de cuidar da casa. Aproveitei muito esse momento bichinho.

Falando agora de momentos menos íntimos, você parece muito à vontade ao posar para fotos...

Acho que resolvi minha timidez no palco (risos). No começo, não tinha autoconfiança, então era tímida. Mas com o tempo, ralando, na estrada, é tanto desafio que é isso: assim sou eu. Não me considero tímida. O que trago comigo, e confundem com timidez, é que sou mais introspectiva, mais na minha, mas isso não é timidez.

Você se acha bonita?

Gosto de mim. Me aceito bem. Gosto de me arrumar, mas sempre tem de ter um elemento bagunçado. Não gosto de estar toda no protocolo, arrumadíssima, porque faz parte da minha natureza essa, sei lá, essa mulher selvagem que existe dentro de mim (gargalhada). Por favor, não coloque isso em letras garrafais (risos).

E no palco, existe um personagem?

Sou bem ruim nisso. Não que eu condene, é uma técnica incrível, tenho amigas atrizes que cantam e têm a técnica de se colocar no palco mais solta, sabe? A Karine (Carvalho, que canta com o 3 na Massa), a Thalma (de Freitas, parceira de Céu no trio vocal Negresko Sis). É muito legal dividir com elas, mas meu jeito ainda é bem natural.

Aparece muita gente apaixonada, pedidos de casamento?

(Risos) Ah, sempre tem umas mensagens. No meu blog, agora mesmo um menino escreveu “casa comigo”. Vou falar que não gosto? Claro que gosto. É bonitinho. Mas também tem aquilo de a música encantar. Cria-se uma atmosfera e a pessoa acaba confundindo tudo. É natural, a música tem um poder muito forte. Tem músicas que me remetem a tempos que eu gostaria de reviver. Ontem mesmo me veio a do filme Labirinto, do David Bowie. É linda, estou até querendo cantar no show. Fiquei lembrando da época em que assisti a esse filme, era muito legal, aquele mistério. Música é forte, mexe com as pessoas.

Nos últimos anos apareceram muitas novas cantoras e você parece destoar da maioria delas. Qual é o seu diferencial?

Ouço (as outras), fui a shows, são muito talentosas. Sou amiga da Mariana Aydar, da Marina de la Riva, nos conhecemos e nos demos muito bem. É muito gostoso poder olhar para o lado e ver gente que me inspira. Da nova geração, a Karina Buhr é muito talentosa. Da minha, a Cibelle é muito talentosa.

Sua música parece não seguir tanto a Marisa Monte, uma referência forte.

A Marisa foi uma divisora de águas e é mais que natural ela ter um séquito. (Pensativa) Minha maneira de encarar a música é muito particular. Sou muito vintage, escuto música da década de 30, de 40, e gosto. Não é tipo, sabe? E tem essas misturas, também um pouquinho mais de distanciamento com a MPB mesmo, daquela coisa do samba. Escutei samba a vida inteira, sou aficionada por Nelson Cavaquinho, Cartola, mas não sou do samba. Não vou inventar uma coisa dentro de mim. Admiro demais, mas fui tentar encontrar algo que faça sentido dentro da minha personalidade, uma colagem do que sou. Nisso entra um pouquinho de samba, desse encontro do Brasil com a África, que sempre me interessou, entra essa pegada calipso, indo para a Jamaica, esse caminho Nordeste, brega com Jamaica, que é muito interessante. No fim, é difícil dizer qual é o meu tipo de som. Quando faço música, não tenho rótulo. Não me sinto MPB. Ninguém me coloca muito na MPB, nem eu (risos).

De onde vêm essas influências?

Conheci esse pessoal principalmente através do Rica, meu cunhado (músico do coletivo Instituto). Quando gravei Concrete Jungle (de Bob Marley, no primeiro CD), queria chamar a cozinha (baixo e bateria) da Nação Zumbi. Sempre curti o Chico (Science), fui da geração que viveu o Manguebit. Chamei, conheci eles e nunca mais deixei de estar perto porque me apaixonei. Por tudo.

Aos 18 anos, você viveu um tempo em Nova York. Como foi essa fase?

Meu pai (o maestro Edgard Poças) ficou bem preocupado, na verdade, desde o momento que decidi ser cantora. Ele sabe a dificuldade desse caminho no Brasil, e sabia que a filha ia querer fazer uma coisa bem específica. Ele me ajudou muito, deu aula, me incentivou e me colocou no (mercado do) jingle (músicas para comerciais no rádio), que foi muito importante. Esse é um mercado super fechado e ele me apresentou aos estúdios. Quando fui para Nova York, ele bancou os primeiros seis meses. Depois, tive que me virar, trabalhei de faxineira, babá, carregadora de casaco. Quis ficar (um ano) porque vi que a minha história ali não tinha acabado. Senti que ia ser bom estudar lá, sacar a escola vocal do jazz americano.

E conseguiu?

Esses trabalhos eram bicos para eu conseguir pagar os cursos. Uma professora de vocal, Pat Holley, morava no Harlem e eu fazia trabalhos de banco para ela, de office-girl, em troca de aulas. Foi lindo. De repente, consegui tocar na noite. Conheci um italiano, casado com uma brasileira, e conseguimos pegar uns lugares que não tinham a ver com o eixo que fazia música brasileira lá. E, em Nova York, despertou a coisa de começar a compor.

Como isso aconteceu?

Tinha um gravadorzinho e comecei a fazer umas melodias, umas letrinhas, depois ia para o violão. Vi que eu tinha músicas, mas pensava “imagina, não dá pra ser compositora” (risos). Quando se cresce num meio tão musical, há um pudor. E foi legal estar lá, na minha, numa cidade onde as pessoas se expressam seja como for.

Você diz que havia um pudor por ser filha de uma artista plástica e um maestro?

Cresci numa família muito atípica, de artistas. Minha mãe tinha uma papelaria e a gente morava no andar de cima. É diferente ser adolescente e crescer numa loja, trabalhando. Isso num bairro que era muito simples, reduto de imigrantes portugueses, e depois ficou “de rico”. Éramos a família excêntrica da Vila Nova Conceição (risos). Minha mãe sempre me incentivou a não fazer faculdade mas, ao mesmo tempo, tinha uma filosofia operária-portuguesa: “Põe a mão na massa e vai trabalhar”. Então fiz cursos e fui tocar na noite. Aos 15, fiz canto lírico com a Catarina (Justus) Fisher. Mudou muito rápido a minha voz. Devo muito a ela.

E seu pai? É seu maior crítico ou fã?

É engraçado, porque tive muito receio com ele, pois sei o que ele conhece de música. Mas ele é o cara que mais entende minha música, da maneira que eu mais gostaria que as pessoas entendessem.

Você tem alguma parceria a caminho?

Agora não. Mas participei do disco do Itamar (Assumpção), que a Anelis, filha dele, vai lançar. Está muito bom.

E essa gravação de Umbabarauma com o Ben Jor (anunciada no site da Nike)?

É o Negresko Sis, com a Thalma e a Anelis. A gente faz serviços vocais (risos) e fizemos uma gravação com o Jorge Ben e o Mano Brown.

Gosta de ser backing vocal?

É uma delícia, adoro sair dessa coisa crooner e ficar só de instrumentista.

Para você, que vive mais lá do que cá, o que é o Brasil?

É esse país multicultural, a gente tem isso no DNA e não dá para separar. Um Brasil fértil, mas também um país de muita corrupção, de muita dificuldade para se conseguir as coisas. Sou uma apaixonada, uma lutadora, e quero muito ficar aqui. Posso até morar um tempo fora, um ano, mas sempre pensei em fazer minha carreira aqui. Não quero fazer um disco de brasileira que mora no exterior. Estou otimista com o Brasil, sinto que a roda está girando, uma coisa mais positiva.

Quando você está fora do país, sente saudades do quê?

Da comida. Tenho muita saudade de arroz, feijão e carne. Sou super arroz-feijão.

Agora uma pergunta meio inevitável: as drogas inspiram a criação?

Se uso drogas para criar (risos)?

Fumar um ajuda a fazer música melhor?

Já fumei, não uso mais, não tenho mais interesse. Mas não tenho nada contra e sou super a favor da liberação das drogas. (A droga) é uma porta que se abre e você realmente tem que ter maturidade para saber voltar, administrar. Na verdade, hoje em dia está mais difícil ficar careta. Essa é a grande loucura. Vivemos numa sociedade muito imediatista, bastante superficial, com muita informação, com tudo de tudo o tempo inteiro, então é muito difícil focar e viver o verdadeiro presente. Nesse segundo disco, quis falar muito sobre se estar no lugar que se está.

Como você busca isso?

Honestamente, procuro ser eu. Não abro concessão com o que sinto. Não programo uma coisa na função de ganhar outra, “fazer um disco para ganhar dinheiro e estourar no exterior”. Vou ser o que sou, e isso às vezes é pesado. Deixo de fazer o que as pessoas queriam que eu fizesse, como lançar disco mais rápido, fazer todo o tipo de mídia. Lido muito com a frustração, com opiniões, e assim vou indo. Amo meu dia-a-dia, amo a rotina, conversar com um taxista, ir na padaria comer um pão na chapa. Meu grande prazer é a vida, o mundo. Se eu começar a me vestir de cantora famosa e for me isolando num lugar onde tenha que estar sempre maquiada, linda e falando coisas inteligentes, isso vai me matar, me autossabotar. Tento viver o presente fazendo o que meu coração quer.

MAKING OF:

Não é fácil conseguir marcar uma entrevista com a Céu. O principal desafio é encontrá-la em solo nacional, já que a moça vive mais na estrada, na Europa e nos Estados Unidos, do que no Brasil. Desde o primeiro contato até acertarmos a conversa, foram quatro meses de espera. Quando finalmente a encontro, vejo uma menina tão na dela, tão sem costume de dar entrevistas longas (pensa muito antes de cada resposta, diz um milhão de sei lás) e — talvez por isso — tão desarmada, que impressiona. Apesar de todo o frisson em torno dela, e de ela ser mesmo encantadora no palco, Céu é apenas uma garota tranquila, talentosa, intuitiva e com muito chão pela frente. Eba.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

entrevista com Ruy Castro


"Não acho nada, não os conheço, a maioria nunca vi jogar. Para mim, os jogadores da seleção são todos iguais"

(entrevista originalmente publicada no Brasil Econômico, no caderno Outlook de 29/05/2010)

ABRE:

Ruy Castro é um talento intenso e em frequente ebulição. Nasceu a quase 500 quilômetros do Rio de Janeiro, em Caratinga (MG), mas essa distância nunca existiu. Com o pai, comerciante, voava para onde viviam seus tios, tias e primos quando bem entendia. Logo estava morando na Cidade Maravilhosa, que viria a ser personagem e cenário quase permanente em todos seus livros, sempre a grande homenageada. Ruy não está de brincadeira quando diz que falar do Rio em sua obra é uma forma de devolver à cidade tudo que ela lhe deu. Graças ao trabalho insano de resgate histórico que faz em suas biografias, é possível respirar e reviver a vida social e cultural carioca, e acompanhar nelas o impacto de figuras como Carmen Miranda, Nelson Rodrigues e Garrincha. Ou da Bossa Nova e de toda essa turma. Não é fácil resumir a produção de Ruy, mas há uma tentativa disso no Fim de Papo, mais adiante neste Outlook.

Dizíamos que ele é uma figura intensa. Pois bem, aos 19 anos, com seu primeiro salário de repórter, na revista Manchete, comprou uma garrafa de uísque. Red Label. Era o começo de uma carreira prodigiosa no álcool e em alguns dos mais importantes veículos da imprensa brasileira (além de Manchete, Ruy passou pelas redações de Pasquim, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Veja São Paulo, IstoÉ, Playboy e Status).

No início dos anos 70, foi morar em Portugal, onde adquiriu perfeito sotaque lisboeta, editou a Seleções, e teve a segunda filha de seu casamento com a socióloga Maria do Carmo Guido, Bianca (que é arquiteta e reside em Lisboa). A primeira, Pilar, é bióloga e mora em Niterói. Ruy tem duas netas e um neto, este lisboeta.

De volta ao Brasil, em 78 imaginou que mudando-se para São Paulo — onde nunca havia pisado antes — finalmente ficaria rico e seria feliz. Não foi bem assim... O_casamento terminou e ele quebrou financeiramente. Até entrar, levado pela namorada Alice Sampaio, numa clínica de recuperação para alcoólatras, ele próprio reconhece que se esbaldou na “melhor fase da vida de um homem: entre o primeiro e o segundo casamento”.

Recuperado, descobriu que dentro do jornalista talentoso hibernava um escritor ainda mais. Começou sua profícua carreira literária, e em 93 voltou ao Rio. Não estava mais quebrado, e sentia-se novo em folha.

Há 20 anos, é casado com a escritora Heloisa Seixas, com quem divide não o mesmo teto, mas a vida conjugal e a paixão futebolística, ainda que ela envergue outras cores. Heloisa é fluminense, e Ruy é tão flamenguista que foi melhor deixar isso mais para o final desse texto. Ele declara ser um rubro-negro visceral, como se isso não fosse um pleonasmo, mas ao longo da conversa percebe-se que Ruy é mais ainda um torcedor do Rio de Janeiro. Se não joga o Flamengo, fica do lado de qualquer time carioca contra outro de fora. Só não torce, mesmo, pela seleção. E explica suas razões a seguir.

ENTREVISTA:

A poucos dias do início da Copa, não dá para escapar do tema: o que você acha da seleção que está na África?

Não acho nada, não os conheço, a maioria nunca vi jogar. Não me impressionaram, não sei onde jogam , não sei qual a posição deles. Para mim, são todos iguais, todos cortam o cabelo com a máquina zero, usam brinquinho na orelha e falam porrrta. Ou seja, não consigo me identificar com esses jogadores e para torcer pela seleção brasileira, tenho que me identificar com os jogadores, admira-los, e eles têm que jogar bem. Se jogarem mal e ganharem isso não quer dizer nada para mim. A seleção brasileira tem a obrigação de jogar bem porque o treinador pode convocar os jogadores que quiser, enquanto o clube, do nosso coração, entra em campo com os jogadores que dispõe, nem sempre os melhores. A última seleção que vi jogando bem, sinceramente, foi em 1982. Desde então, me desinteressei muito. Estarei em Portugal dia 24 de junho, Brasil e Portugal, cuidando da exposição da Carmem Miranda. Espero que empate, ou que Portugal ganhe.

O que você acha da figura do Dunga?

Discordo do penteado dele, do sotaque dele, das camisas dele e do temperamento dele.

E da seleção dele?

Ça va sans dire (não preciso nem dizer).

Você não quer nem saber se esse time passa das oitavas?

Isso não me tira nem um segundo de sono. Não estou fazendo a menor fé, então qualquer coisa de ótimo que essa seleção fizer será uma grande surpresa para mim.

E se ela ganhar como parece ser a chance, ao estilo Parreira de 1994?

Não vai me dizer nada. Esse título aí, 94, eu nem conto. O de 2002 também não. Tenho pouca memória deles. Sei reproduzir lance por lance passagens da Copa de 58, até da Copa 70 e muita coisa da Copa de 82. Mas essas que o Brasil ganhou mais recentemente, para mim, não dizem muita coisa.

Foi injusta a derrota em 82 ou realmente jogamos mal contra a Itália, naquele jogo fatídico?

O time jogou mal, entre outras coisas, porque estava mal escalado. Jogar com Serginho no ataque e aquele zagueiro, Luizinho? Foi mal escalada e não jogou o que poderia. Mesmo assim, não precisa ter perdido. Na verdade, não precisava nem ter ganho. Precisava só do empate. Faltou quem dissesse “calma, gente, não precisa correr tanto”. A Itália começou a jogar naquela Copa naquela partida. Até então, tinha uma campanha medíocre. Esse tipo de atenção para regulamento, à necessidade de ganhar ou só de empatar, não acontecia. Em 1982, certamente não acontecia.

Hoje a seleção tem muitos evangélicos, bons meninos. O que você acha disso?

Não só a seleção, todos os clubes. Outro dia entrou um jogadorzinho no Flamengo (Diego Mauricio), jogou bem, sofreu um pênalti. Aí, na saída do vestiário, ele falou “Deus é Fiel” umas cinqüenta vezes. O cara tem 18 anos, nunca deve ter tocado uma punheta na vida, entendeu? Lamentável (risos).

Não existem mais figuras apaixonantes como o Garrincha no futebol?

Fico imaginando o Nelson Rodrigues, o Mario Filho, escrevendo sobre figuras como o Ronaldo, o Adriano, o Vagner Love, esse racista aí que treinava o Palmeiras (Antonio Carlos Zago), esses evangélicos todos. É impressionante o que eles não teriam de assunto hoje. É uma deficiência estarmos tratando superficialmente esses personagens que são de grande riqueza psicológica.

Ser sempre chamado para falar de biografias é o preço ou o prêmio pelo seu sucesso?

Tenho muito prazer em falar sobre isso. Imagino que as pessoas, ao lerem os livros, tenham curiosidade de saber como o biógrafo chega àquelas informações e àquela riqueza de detalhes. Existe uma técnica para isso e não tenho o menor problema em divulgá-las e, se possível, estimular o máximo de pessoas a se arriscarem em biografias.

Nesses cursos e palestras, você diz que bom é ter a fonte (da informação) viva ao mesmo tempo em que prefere o biografado morto. Fale dessa equação.

O biografado é a pior fonte possível, não é confiável. As pessoas que conviveram com esse biografado, com um certo distanciamento do tempo, são as melhores fontes. Se é um morto com 10 anos de túmulo, fica melhor. O biógrafo tem a obrigação de tentar extrair da memória dessas pessoas não só o melhor, mas o pior também.

Seu livro sobre o Garrincha enfrentou problemas na justiça (Estrela Solitária ficou proibido de circular por 11 meses, e o processo se arrastou por 11 anos, com o livro em liberdade) que estão cada vez mais comuns. O que você acha disso?

Os processos são sempre oportunistas. Hoje, as editoras estão mais cuidadosas e o cerco está se fechando. No caso do Roberto Carlos, o autor (Paulo César de Araújo) foi processado, o livro (Roberto Carlos em Detalhes) retirado de circulação e nunca mais voltou. E nesse momento, há um livro que ameaça nem sequer ser publicado, que é a biografia do do Raul Seixas. A Heloisa (esposa de Ruy), que é prima do Raul, é fonte do Edmundo Leite, o autor. Eu acabei me envolvendo, dei vários palpites para ele. Ele estava fazendo um trabalho espetacular que, infelizmente, pode não chegar a ser publicado. Não sei em que pé está essa lei (do deputado Antonio Palocci, que autoriza a biografia não-consentida de pessoas públicas). Já fui a Brasília uma ou duas vezes tentar desencalhar o projeto de uma das comissões em que está parado. Claro, porque muitos políticos não têm o menor interesse que essa lei passe.

Quem no Brasil merece uma boa biografia?

Inúmeros. Guimarães Rosa, Drummond, Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Di Cavalcanti, que eu até gostaria de fazer. Carlos Lacerda, gostaria de fazer. A grande biografia brasileira de todos os tempos seria a do Roberto Marinho. Ele fez coisas espetaculares e coisas condenáveis, como todos os proprietários de jornais do tempo dele e depois dele. Mas é quase uma história do Brasil, não só empresarial, mas cultural e política.

Nas suas colunas de opinião na Folha de S.Paulo, o tema do alcoolismo e a sua crítica ao lobby da propaganda de cerveja na Copa, é muito recorrente. Qual é a sua história com o álcool?

Fiz no avião uma coluna sobre a Lindsay Lohan, sobre isso. Sou da geração da maconha, mas das poucas vezes que fumei aquele troço, passei muito mal. Sou anterior aos hippies. Quando essa coisa de Píer (point hippie em Ipanema, nos anos 70) apareceu eu nem estava mais no Brasil, Deus me livre! (Risos) Mas sempre convivi com uma geração muito mais velha que a minha, a do álcool, do uísque. Com o meu primeiro salário, de repórter da Manchete, no final de 67, comprei uma garrafa de Johnnie Walker, Red Label. Sempre bebi, sempre me dei muito bem com bebida. Nunca tive uma ressaca, uma dor de cabeça. Tinha um organismo feito para beber. Nos primeiros 15 anos, bebi em grandíssima quantidade e a bebida não me alterou a vida em nada. Nos últimos 5 anos de bebida, estabeleci um processo de dependência do qual só saí muito depois, com uma internação. Aí realmente me afetou de todas as maneiras, pessoalmente, financeiramente, a saúde, tudo.

Aconteceu algum episódio limite, algo dramático, que o fizesse ter consciência da dependência?

Nunca tive. Só depois que parei. Até então, como todo bebum, achava que bebia porque gostava. Nesses últimos 5 anos, entre 83 e 88, comecei a perceber que não podia ficar afastado da bebida por muitas horas, nem minutos. Tremia, era a síndrome de abstinência. Estou sem beber há 22 anos e, depois disso, tudo começou a acontecer na minha vida, inclusive os livros. Até ali (parar de beber), eu não tinha ideia de que pudesse fazer uma carreira com livros. Tudo mudou. Passei a ter uma clareza mental e uma disposição física que eu não tinha. Tomando dois litros de vodka por dia, na fase final, eu não tinha nem tempo de trabalhar (risos).

Você parou de beber mas continuou fumando, né? (parou após ser diagnosticado com câncer)

Claro. Nunca demonizei nem bebida nem cigarro. Fumar é ótimo. Parei porque tinha que parar. Mas se algum dia eu soubesse que tenho só 15 dias de vida, a primeira coisa que faria é ir comprar um maço de cigarro.

A Heloisa faz um relato (no livro Álbum de retratos — Ruy Castro) de como o diagnóstico e o tratamento do seu câncer aconteceram durante o período em que você escreveu Carmen (biografia da artista, lançada em 2005). O livro te salvou?

Assim que ouvi o diagnóstico, pensei, “Ih, vou atrasar o livro”. Não estava com medo de morrer, estava com medo de atrasar. A Heloisa, citando de leve a prepotência com que eu sempre falei que poderia parar de fumar quando bem entendesse, me sugeriu que eu parasse ali. E eu parei, no mesmo dia. Fiquei um pouco decepcionado com o cigarro. Sempre tive grande prazer de fumar e, de repente, me vi moralmente compelido a parar. Mas nesse tipo de câncer, na base da língua, o culpado é sempre o cigarro e a bebida combinados. Mesmo tendo parado de beber há anos, eu tinha criado as condições para a doença.

Nesse relato dela, você diz que não se arrepende porque, se não tivesse feito tudo o que fez, bebido, cheirado, fumado, seria outra pessoa.

Isso fora outras coisas, mais complicadas (risos).

Aqui tem outro assunto complicado, mas em outra área. Como está o seu flamenguismo hoje, com Adriano indo embora e o clube nesse clima?

O Flamengo é muito maior que o Adriano. Esse período foi bom para os dois, ele deu um campeonato para o Flamengo e o Flamengo deu todo o apoio e tolerância possíveis para ele. A maioria dos nossos clubes funciona da maneira mais paternalista e mais desinformada possível. A bem da verdade, o Adriano não deveria estar jogando no time do Flamengo, nem no time da Roma. Tinha que estar no time da Vila Serena, que é uma clínica de recuperação de alcoolismo. Tenho a impressão que o Adriano ainda não é um dependente. Que ele é alcoólatra, não há dúvida, e isso não é nenhuma ofensa. Também sou alcoólatra. O fato de eu ter parado de beber há 22 anos não me torna um ex-alcoólatra, não existe ex- alcoólatra. Mas tudo indica se ele não interromper esse fornecimento, se ele não tiver consciência do que está acontecendo, infelizmente vai se tornar um dependente. Ainda mais com a quantidade de dinheiro que ele tem e com a quantidade de pessoas a fim de protegê-lo e passar a mão na cabeça dele.

No Flamengo as coisas são sempre assim? O Júnior (ex-jogador e comentarista de futebol) falou para a gente que isso é parte da cultura da instituição.

Tudo que acontece ali tem uma repercussão monumental. De fato é difícil imaginar o Flamengo administrado de acordo com as leis do bussines, do bom senso. O grau de paixão envolvido é muito grande.

Há quem diga que isso é um retrato do Brasil.

Não sei. Do Rio, talvez sim. É mais parecido com o Rio. Mas a coisa do Flamengo, mesmo o pessoal do Corinthians não tem ideia do que é. A torcida do Corinthians se ilude muito com essa coisa de ser a segunda maior. O Datafolha fez um contorcionismo estatístico recentemente para ver se conseguia chegar a um empate técnico. É impressionante! Não sei como o Datafolha ainda consegue manter a credibilidade depois de uma piada dessas. Em qualquer lugar do Brasil o Flamengo é maioria. Então tudo o que acontece ali tem um destaque enorme, é difícil manter a frieza, o equilíbrio, porque a instituição não favorece isso. Mas, é claro, deveria ter o mínimo de organização.

Você fica chateado com o fato de ser cada vez mais raro um jogador realmente identificado com o clube em que joga?

O Flamengo tem jogadores como o Bruno, o Leonardo Moura, o Ronaldo Angelim que estão lá há quase 5 ou mais de 5 anos... Mas, claro, se revela um, vai logo embora. É lamentável. (Longo silêncio) Deveria haver uma regulamentação para dificultar esse tipo de comércio. Uma coisa é ver um menino como o Ganso, que explodiu e não há dúvida que será cobiçado lá fora. Outra é você ver, num time inexpressivo, um cabeça-de-bagre que já passou por 10 times no Brasil, na Europa, na Ásia. Nitidamente há um tráfico ilegal nesse negócio. Alguém está ganhando muito dinheiro às custas desses pobres inocentes, que são mandados de cima para baixo como se fossem mercadorias. É quase um tráfico de brancas.

Como você e sua esposa (a escritora Heloisa Seixas), dois apreciadores do futebol, lidam com a diferença de paixões?

Ela é fluminense. Quando tem Fla-Flu, ela vê no apartamento dela e eu no meu. Moramos separados. Mas ela torce pro Flamengo à beça, e eu sempre torço pelo Fluminese quando o Flamengo não está jogando. Na verdade, torço para todos os times do Rio. Não tem essa coisa de sacanear meu vizinho vascaíno. Quando o Vasco joga contra um adversário de fora, torço por ele. Torço pelo futebol carioca.

E que tal o futebol carioca?

O futebol carioca está pagando pelo excesso de desorganização, que é uma constante. Durante os 60 primeiros anos do futebol brasileiro, o clube mais organizado era o Fluminense. Um clube de elite, modelo de administração, que disputava esportes olímpicos, esgrima, natação... Tinha uma presença forte na formação esportiva do atleta brasileiro. A dívida que o Brasil tem para com esses clubes mais antigos nunca foi suficientemente enfatizada. Se tivesse uma maneira de zerar as dívidas que esses clubes têm hoje, e passar a cobrar responsabilidades dos dirigentes atuais, o Brasil não estaria fazendo mais do que sua obrigação. Além do Fluminense, encontrava-se grandes homens no Vasco, no Flamengo, no Botafogo. Sou do tempo que certos dirigentes eram médicos, advogados, tinham uma vida importante fora do clube. Os clubes eram administrados por pessoas de grande valor.

Já hoje em dia...

De uns 20, 30 anos para cá, os dirigentes são pessoas nascidas dentro do clube ou na periferia do clube que entram com cargos importantes, mas sem nenhuma história, sem nenhuma biografia. Pode-se ver isso nos políticos também. Quando a capital era no Rio, médicos, advogados, engenheiros faziam carreira política. Eles levavam para a política todo o seu peso, sua dignidade, sua compostura. Hoje, em Brasília só tem políticos profissionais. Caras que se formam para serem políticos e, nesse sentido, vale tudo. Quem vai querer morar em Brasília a não ser políticos profissionais? Ninguém, não tem como. Você vai a Brasília para isso, ou para fazer grandes negócios.

Brasília foi um erro?

Quem diz isso é o Carlos Lessa (ex-presidente do BNDES). Não defendo que devesse ter continuado no Rio. O Rio adorou se livrar da capital, mas perdeu muito com isso porque todas as promessas feitas não foram cumpridas, como a abertura de indústrias. O Rio foi sacaneado de todas as maneiras. Mas, antes, o político, do burgo que fosse, chegava com sua senhora ligeiramente caipira, seu filhinho com o dedo no nariz (risos), numa cidade com 300 anos de poder, com teatro, cinema, salões, confeitarias. Esse político tinha que dar um up grade em si mesmo, ou seja, havia uma elevação de nível da elite política brasileira. Agora, não. O cara sai lá do caixa-prego, passa dois dias em Brasília, e volta pro caixa-prego. São essas pessoas que decidem o destino do Brasil.

Quando você fala desse político mal instruído, está pensando no Lula também?

Não. O Lula é o contrário, é um prodígio de intuição e de savoir faire político. Me refiro aos outros, a esses Delúbios, essa corja que cerca o Lula. Todos eles.

Então vamos voltar à sua praia. Como é o Rio de Janeiro do Ruy Castro?

Como todo grande carioca, não nasci no Rio. Nasci em Minas Gerais. Mas tinha uns 50 parentes no Rio, e vivi o melhor dos dois mundos. Passava meses no Rio, meses em Caratinga. O Rio do meu pai era o Centro da cidade, a Lapa, o Tabuleiro da Baiana, o Largo da Carioca... Cansei de pegar a praia do Flamengo, antes do aterro, era pouquinha areia mas todo mundo ia. Fui ao Maracanã a primeira vez aos 10 anos. O Rio todo é o meu departamento. Falo dele nos meus livros porque conheço o cenário, e, de alguma maneira, tenho que devolver ao Rio o que ele me deu. É uma maneira de tentar estabelecer uma cultura, mostrar como eram as coisas em certo momento.

E como é o seu Rio hoje?

Quando voltei ao Rio em 96, depois de 15 anos em São Paulo, pela primeira vez fui morar no Leblon. Queria ficar perto da praia, e o bairro é auto-suficiente.

O Leblon de hoje, entulhado de paparazzi atrás de celebridades, te incomoda?

O carioca nunca ligou para isso, está acostumado a passar a mão na bunda do rei. O Rio foi capital da colônia, do vice-reinado, do império e da república. O carioca não tem nenhuma cerimônia com o poder. Não é qualquer artista que vai fazê-lo virar o pescoço. Esses paparazzi não me incomodam em nada.

MAKING OF:

A entrevista e as fotos desta reportagem aconteceram no Centro Cultura b_arco, em São Paulo, onde Ruy passou alguns dias para dar mais um curso livre de biografias. Ele foi atencioso e esbanjou sua memória detalhista e precisa, mas, convenhamos, deve ser horrível para um jornalista ser "apenas" o entrevistado. Três vezes ele interrompeu um raciocínio para me perguntar, afinal, como é que eu ia editar tudo aquilo. Ficou impressionado — diria até incomodado — quando soube que a transcrição da entrevista não seria impressa, que eu faria a edição no computador. Tentei argumentar que costumava funcionar, até que muito bem. "É, mas acho que imprimindo você tem uma visão mais abrangente do material", não se conteve. No final do papo, ofereceu-se para "arredondar certas respostas, colocar umas piadas". Talvez tenha ficado com medo de aparentar mau humor. Tem nada não, Ruy. Suas respostas estão ótimas. E, como eu falei, minha próxima entrevista com você será ainda melhor.