sexta-feira, 15 de outubro de 2010

"o corintianismo é isso...

...é como se fosse uma religião."

anuncia um dos primeiros entrevistados do meu filme, o "Só quem é sabe o que é", que está no YouTube desde 1º de setembro e já foi visto 17.500 vezes. Um pequeno fenômeno, do qual muito me orgulho.

e hoje entrou no ar o site do filme, desenvolvido pelo Rodrigo Silveira Ferreira, na base do amor mesmo, porque grana a gente não tem.

ficou super legal, tem o filme, tem as reportagens que saíram a respeito, tem a sinopse e logo vai ter fotos da produção e, espero, notícias de uma carreira em festivais nacionais e internacionais. Tudo aqui, ou em http://www.corintianismo.com.br/

Né?

Nóis.

editorial Outlook #51

Gabriel Penna tinha imberbes 13 anos quando

começou a se preparar para escrever a

reportagem da página 20, sobre as preciosidades

douradas que Vinicius chamava de ‘cachorro

engarrafado’, o melhor amigo do homem. Já

Daniela Paiva, por sua vez, devia ouvir só Plebe

Rude e Legião Urbana quando começou a sonhar

em riscar a pele a sangue e tinta, como

corajosamente faz e coloca Em Foco na página 6,

num texto que quem é tatuado lê escutando o

barulhinho do motor das microagulhas. Também

Erasmo Carlos gastou-se em 50 anos de estrada

antes de chegar ao Baretto, 17, o seletíssimo bar

do Hotel Fasano, para um pocket show em

excelente companhia. O tempo nos prepara

para o susto que é a vida. Ou, ao menos, deveria.

Não foi o que aconteceu com o Belluzzo (23),

que desde menino pôs-se a amar um certo time

de futebol, paixão esta que o jogou numa cama

de hospital. A vida é susto, mesmo. Mas também

é festa, e tem de valer o porre. Phydia de Athayde

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Larga disso, Belluzzão

(originalmente publicada no Brasil Econômico, 24/09/2010)


Ainda estávamos em abril deste ano e ele, coitado, já percebia a profundeza da encrenca em que se metera: “Era muito mais fácil ser presidente do Banco Central do que do Palmeiras”, constatava Belluzo, para arrematar com um profético “nessas de ajudar é que se entra pelo cano”. Essa frase estampou a capa do Outlook número 27. Estamos no 51, e a coisa só piorou.


O homem que esta semana deu entrada no hospital Sírio Libanês, de onde há de sair com duas pontes de safena em seu alviverde coração, de fato entrou pelo cano. Ou, numa inversão da metáfora, os canos é que entraram em seu peito, de modo a deixá-lo vivo.


Sai dessa, Belluzzão. O Palmeiras não te merece. Clube nenhum de futebol no Brasil há de merecer alguém tão Belluzzo como você. Vê só o meu Corinthians, a refestelar-se com o tão maloqueiro Andrés Sanchez.


Você bem previu, Belluzzão, e não é mesmo por aí que a banda toca. Não adianta chegar na presidência todo sério, fazendo acordo com celeiro de jogadores, com empreiteira, com torcedores organizados, trazendo (quatro!) técnicos dos sonhos da torcida — e que até agora colaboram no esvaziamento dos cofres verdes. Ninguém quer saber disso não. E decerto vão dizer que te faltou experiência, ou malandragem, ou sorte.


Talvez nem Deus saiba o que reservou ao seu time. Quando o repórter Gabriel Penna esteve no Palestra, antes das obras que não começaram, em julho, pareceu ter captado no ar a sentença que você agora paga, na mesa de cirurgia, e que é a de todos os parmêra que eu conheço: a de sofrer a eterna saudade de um futuro glorioso. Que não chega. Nem o título, nem o estádio, nem um maldito golzinho pra dar uma moral. 


Sai dessa, Belluzzão. E quem fala isso é uma corintiana que sofreu demais ao escrever, novata que era, na revista CartaCapital, sobre o pleito à presidência do Palmeiras, em 2003, do qual você saiu derrotado — e ovacionado. A mesma que, quando você conquistou o posto que a vida lhe incumbiu, teve de admitir aos amigos sentir uma certa inveja do Palmeiras por ter um presidente tão Belluzzo para cuidar do seu futuro. 


Que futuro ingrato.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

editorial Outlook #50

(e este, de hoje, 17 de setembro, alcançando, por algumas horas, o tempo)


Nada como uma plaquinha bem colocada. Como a que serviu a J.R.Duran (12) no dia em que fez um clique à Ansel Adams sem esforço algum. Tão bem assentada que qualquer um acataria a dica de enquadramento e, pimba, eis a obra de arte capturada. Já para adentrar num certo túnel do tempo não havia indicação. Só os iniciados, ou melhor, os ‘antigomobilistas’, souberam previamente do desfile de Cadillacs, Mavericks e Jaguars que colocamos Em Foco a partir da página 6. Por falar em eventos exclusivos, esta edição traz, ainda, um atalho secreto — no caso, para o estômago de Luiz Henrique Ligabue, que retornou dois quilos mais repórter de uma excursão ao Peru (21). Outro luxo deste é termos na 18 o próprio Giuseppe Tornatore, diretor de Cinema Paradiso, a nos contar que seu novo filme, Baarìa, é o mais autoral que já fez. E que bom mesmo é falar da própria história, da própria terra, como faz Laurentino Gomes (26com a do Brasil. Boa viagem. Phydia de Athayde

editorial Outlook #49

(mais um, mais um, mais um. De 10 de setembro)


No jornalismo, estar perto demais de algo precioso é sempre meio delicado. Muitas vezes a gente deixa de noticiar para não parecer tirar vantagem. Noutras, a notícia simplesmente nos atropela. Isso acontece esta semana, em que não posso deixar de destacar a honra de ter uma colunista do naipe da Lilia Moritz Schwarcz 4de novo finalista do prêmio Jabuti, conquistado outras vezes. Desta vez, concorre com o muito conveniente Um Enigma Chamado Brasil, com André Botelho, editado pela Cia. das Letras. E aí a situação se repete, pois também não deu para deixar de entrevistar o escritor Luiz Schwarcz (26) que, tirando o fato de ser marido da Lilia, é o homem que lidera um dos maiores sucessos editoriais do país, a Companhia das Letras. E, para me apertar de vez, os dois ainda vêm a ser sogros do Luiz Henrique Ligabue, um repórter que como poucos é capaz de transformar meras alcachofras (21) em história e poesia (e receita). Mas isso fica só entre nós, OK? Phydia de Athayde

editorial Outlook #48

(seguindo na ideia... Esse foi do dia 3 de setembro. Primeira edição inteira sob a batuta desta)


Que Google Earth, que nada. Abaixo o clique frio dos robôs programados para nos mapear. É muito mais legal quando nossa vidinha terrena se transforma em pixels para as fotos de Cássio Vasconcellos, a partir da pág. 6. Fiquei tão admirada que nem atinei para o quanto o homem deve ter se dependurado no helicóptero para conseguir cada uma. Por trás de todo trabalho pronto, há sempre uma viagem particular do autor. Ainda bem que, no caso do novo disco do Djavan (18), temos o Pedro Alexandre Sanches para desvendar todas as trilhas, e mudanças de penteado, do artista. Ainda bem, também, que para a editora Cristina Ramalho o ator Marco Nanini é como um velho amigo. Na conversa deles, 26, temos o privilégio de ir além dos velhos temas para logo mergulhar no que é novo. É também o que fez a repórter, e zero-pilota, Natália Mazzoni ao testar uma bike elétrica, 22, e voltar outra menina. E tem mais viagens aqui. É só seguir em frente. Phydia de Athayde

editorial do Outlook#47

(Publicado no Outlook, do Brasil Econômico, onde agora venho a ser editora-executiva. E como isso, entre outras mudanças, significa ter menos tempo para escrever, tive a ideia maluca de reproduzir os meu editoriais aqui no blog. Só de onda, e já me desculpando caso provoque alguma curiosidade quanto às matérias. É que, apesar de se chamar "Outlook", o suplemento não tem versão digital. E, a propósito, este editorial abaixo é de 27 de agosto. Pelo menos vale para apresentar a Rita, que está no post abaixo)




Admito, de saída, que faço um esforço danado para não dizer que a reportagem sobre o Timão, na pág. 6, escrita pelo repórter Gabriel Penna com elegância até de sobra para o tema, é a mais importante dos últimos 100 anos. Guardo para mim os desdobramentos desta paixão tão popular para, em vez disso, inspirar-me na festa privé que é a Revista Nacional (18), novo lançamento de J.R.Duran, e falar de algumas preciosidades deste Outlook. Uma é a radiografia dos covers mais originais do país, feita pela repórter Daniela Paiva na página 14, outra a crônica de Humberto Werneck, na 5, que é
sempre uma aula e um privilégio. Há muitas, que bom. E talvez o leitor mais observador note que esta edição, de alguma forma, fala da magia que transforma o simples em extraordinário. É o que a chef Rita Lobo (26) faz na cozinha e ensina no site Panelinha. Ao conversar com ela, a gente sai acreditando que tudo na vida é questão de dar um passo depois do outro. Phydia de Athayde

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

entrevista com Rita Lobo


(originalmente publicado no Brasil Econômico, 27/08/10)


"Fazer sua própria comida todos os dias é um ato heróico"


ABRE
     Como a colher de pau acima bem faz supor, Rita Lobo não só tem amor pela culinária como um lindo par de olhos azuis. Com estes, nasceu. Já a habilidade na cozinha exigiu  treino e muita dedicação. Rita tem 35 anos e, como muitas mulheres de sua geração — filhas das que viveram a revolução da pílula nos 70 —, não trouxe da infância os segredos de forno & fogão que até então credenciavam mocinhas para se tornarem  boas e domésticas esposas.
     Aos 15, descoberta por Bob Wolfenson, Rita iniciou uma carreira de modelo que duraria três anos. “Como eu era ligada em comida, aproveitava as viagens internacionais para conhecer a culinária local”, lembra ela. De volta ao país, apresentou durante um ano o MTV_a Go Go  para, logo depois, em uma viagem à Nova York, finalmente decidir estudar para ser chef. Em seis meses, engordou os 10 quilos mais instrutivos de sua vida. Voltaria à silhueta, mas nunca mais seria modelo no sentido fashion da palavra.
     “Contrariamente à moda, que na minha opinião afasta as pessoas, a comida tem o poder de aproximar”, escreveu em Cozinha de Estar, o primeiro de seus três livros. Depois vieram Culinária para o Bem Estar — Receitas Anti TPM e A Conversa  Chegou à Cozinha.
     Antes deles, Rita chegou ter um restaurante, o Oriente, mas encontrou sua melhor receita como cronista dos costumes da nova cozinha — a das novas mulheres. Depois de escrever sobre culinária na Folha de S. Paulo, foi convidada para criar um site de gastronomia. Que tal? “De gastronomia, não. De culinária, sim!”, explica. É que gastronomia é, digamos, fashion. E culinária tem mais a ver com a vida real. A vida cotidiana que, por isso mesmo, é sagrada.
     Assim nascia o Panelinha, um fenômeno de bom gosto na internet, com 20 mil visitantes únicas por dia. A maioria mulheres em busca de, basicamente, dicas para “entar na cozinha e, meia hora depois, sair com o jantar nas mãos”. São as moças de fino trato dos anos 2000.
     Dez anos se passaram, Rita é mãe de Gabriel e Dora, e o Panelinha é onde  sempre há receitas interessantes, rápidas e muito bem explicadas. E todas são testadas e comentadas com a intimidade elegante que ela nos mostra nesta entrevista.


ENTREVISTA

Nesses dez anos de site, muitas mulheres aprenderam a cozinhar com o Panelinha. E como você aprendeu?
Vou fazer 36 anos e na minha geração tenho a impressão que muitas mães enxergavam o ato de cozinhar como uma submissão. Existia um orgulho em dizer: “nunca precisei cozinhar”. Quando eu tinha 20 anos e falei para minha mãe que ia fazer um curso de gastronomia, ela não entendeu nada. Ela não gosta de cozinha, não tem interesse. Em casa, tínhamos um supercozinheira, a Zeti, que tinha trabalhado antes na casa de libaneses, então comíamos muito quibe, charutinho de repolho, coisas que não têm a ver com nossa família (risos). Do lado materno, minha avó é húngara e casou-se com um italiano. O outro lado da família é superbrasileiro, Lobo e Nogueira Garces.

Então, na sua infância não tinha aquilo de brincar de fazer bolo?
Eu grudava em quem estava na cozinha. Com uns 10 anos, menina, eu gostava de fazer bolo, pão de ló, rocambole...  Sempre fui ligada em comida, e lembro que nos finais de semana sempre almoçávamos fora. Em São Paulo tem essa variedade, então íamos ao chinês, ao árabe, ao italiano. Japonês ainda não tinha era como hoje. Ir até a Liberdade (tradicional bairro de imigrantes japoneses) era uma aventura.

Ainda bem nova, você se tornou modelo e viajou muito para o exterior. Como aconteceu?
Tinha uns 15 anos e me convidaram para fazer uma foto com o Bob (Wolfenson), para uma campanha da Calvin Klein. _A partir disso comecei a viajar como modelo e foi uma experiência muito legal. Tive oportunidade de conhecer lugares e, como já tinha essa antena para culinária, ficava prestando atenção no que se comia no Marrocos, no Japão... Essa experiência me deu um panorama muito rico. Durou dos 15 aos 18 anos.

As modelos já eram esquálidas?
Todo mundo era muito magrinho.

Havia a pressão para manter o peso?
Hoje, meninas que não têm necessariamente o biótipo querem ser modelo e ficam nessas maluquices. _Tem gente que é magra e tem gente que precisa parar de comer para ficar magra. Tive sorte, digamos assim, porque trabalhei na adolescência e era bem magrinha, não exagerava (na comida).

Como é a sua relação com a comida?
(Pensativa) Não é diferente da relação com as outras coisas da vida. _Deve haver um paralelo. Quem _é descontrolado com comida também _é compulsivo no shopping, em outros aspectos da vida. Sou supercontra _os produtos light. Essa moda light _é o seguinte: por ser light, a pessoa come oito vezes mais do que precisaria. Quando o Gabriel, meu filho, começou _a comer, veio aquela fase chata de não querer nada. Fui ao pediatra e ele me falou para nunca mandar comer porque precisa. Come é porque é gostoso! Comer é um momento de prazer. _Fazer a criança comer para ganhar _um brinquedo, ou a sobremesa, _deturpa a relação com a comida.

Mas e você, como age diante
de um prato maravilhoso?
Cada refeição é uma refeição. Se estou em Paris e o menu tem sete pratos, vou comer os sete pratos. Mas muito provavelmente no dia seguinte não conseguirei comer tanto. É do meu organismo. No meu dia a dia, sempre como pensando que mais tarde vou comer alguma outra coisinha, depois outra... Nunca é o último prato de comida da vida (risos). Cresci escutando que o segredo para uma boa saúde é sair da mesa com um pouco de fome.

O que é comida boa?
Esses dias, estava testando uma receita de tortas com a Sandy (ajudante) _e fizemos uma torta _de frango bem simples. Peito desfiado, refogado com alho, cebola, tomate, uma gema para dar um engrossadinha e o caldo do cozimento. E coloquei um Gruyère. Meus sobrinhos estavam aqui, meus filhos, e meu irmão e minha cunhada chegaram com aquela cara de “vai ter jantar, né?”. Sentaram todos na mesa e foi um prazer enorme todos comendo junto. Isso para mim é tão saboroso quanto a comida em si.

E a gastronomia? Onde entra?
O meu trabalho não tem nada a ver com gastronomia. É ensinar uma menina que foi morar sozinha a cozinhar e se virar. _É dizer que com um ovo, em três minutos, você faz uma refeição colocando isso e aquilo. Esse é o meu trabalho. Não tem nada a ver com frescura. Pessoalmente até gosto de alta gastronomia, de viajar, comer em bons restaurantes, mas não é o meu trabalho.

Apesar disso, você costuma dizer que não faz cozinha caseira, e sim cozinha doméstica. O que é isso?
Minha preocupação maior é a cozinha do dia a dia. O público do Panelinha _(a maioria mulheres) tem filhos pequenos e precisa ter almoço e jantar todos os dias. Essa mulher pode até trabalhar em casa, mas não tem disponibilidade para ficar quatro horas fazendo arroz, feijão, ensopado... Penso em receitas para que ela entre na cozinha e saia meia hora depois com um prato na mão. Apesar de eu ter conhecimentos da cozinha profissional, meu trabalho é o da cozinha doméstica. O meu forno é bom, mas é convencional, o fogão também. _Nada é profissional, porque faria diferença. Ninguém usa equipamento profissional em casa.

Quais são os hits do Panelinha?
Temos de parar com essa mania de em toda refeição ter um mundaréu de comida. Nem toda refeição que tem _que ter carne, feijão, arroz e salada. Pode ser um prato, só uma massa. _A Piadina virou hit: é um pão italiano, chato, que se faz em 10 minutos. _A massa fica pronta em três minutos _e é assada na frigideira. Quentinho, coloca salada, mussarela, tomate, rúcula, põe manjericão. Isso é o jantar, não precisa mais. Outros hits são com coisas como cuscuz, que ficam prontas em 10 minutos.

Como é sua relação com
as leitoras?
Sou contra comentários na página oficial. Pode colocar no Facebook, no Twitter, falar mal, falar bem, desde que seja na sua página. É muito, mas muito chato isso de ter espaço para comentários. Na última reformulada _do Panelinha, me cobraram isso _(e ela não colocou). É uma poluição desnecessária. Por outro lado, cada um tem a sua página dentro Panelinha se quiser. Há um canal onde as pessoas se cadastram, adicionam qualquer receita do Panelinha e escrevem o que quiserem. Meu blog também não aceita comentários, mas recebo de 10 a 20 emails por dia. Eles são a base do meu trabalho, são onde vejo o que as pessoas precisam, o que querem, o que pode ajudá-las no dia a dia.
Os leitores do Panelinha são tratados
a pão de ló (risos).

Nesses 10 anos, esse perfil mudou?
Muito. No começo, eu tinha a sensação de que quem ia buscar receita na internet queria algo muito diferente. Lançamos o Panelinha com receitas superespeciais, mas me perguntavam, nos emails: “E como é que eu frito um ovo?”. Tem público para as receitas básicas do dia a dia, tem o público que imprime para a empregada fazer. _E, depois que casei e tive filhos (e passou a focar em almoço e jantar para todos os dias), falo da minha realidade e tenho respostas (de leitoras) de uma _realidade parecida.

Em que outras questões você tem _se aprofundado?
O Cozinha Verde é um blog (dentro _do Panelinha) em que presto muita atenção em como deixar o ato de cozinhar mais sustentável, em levar _em consideração atitudes saudáveis para você e para o planeta. Há quatro meses estamos falando de economia de recursos naturais, uso racional da água, de alimentos, reciclagem. As conclusões são muito legais. Cinquenta por cento do lixo doméstico é resto de comida, então precisamos diminuir o resto de comida. Como? Cozinhando porções menores e precisas. Se tem uma receita de lasanha da sua tataravó que só dá para fazer para dez pessoas, congele o que sobrar em porções individuais, porque o freezer lotado gasta menos energia que vazio. São pequenos detalhes que fazem a cozinha doméstica melhor. Não está na minha mão a questão do descarte do lixo orgânico, mas está na minha mão a quantidade de comida que coloco no prato dos meus filhos. Outra. Uso integral dos alimentos não são aquelas receitas do SESI, “bolo de casca de banana, suco de casca de abacaxi” (risos). É um passo antes. Maçã, não precisa descascar. Cenoura, é só lavar com escovinha. Alimentos assados, batata, berinjela, abobrinha, vão todos com casca. Além de gostoso é mais nutritivo.

Você é a favor dos orgânicos?
O mundo insiste tanto para se comprar lasanha congelada, que conseguir fazer sua própria comida todos os dias, alimentar seus filhos, fazer refeições em família, já é um ato heróico. Se der para ser orgânico, beleza. Se não der, beleza também. Na cozinha doméstica, cozinhar já está muito bom. Tudo que _se torna uma preocupação a mais, seja _o orgânico ou a reciclagem, é porque ainda não está na hora. Sinto que participamos de um movimento que traz de volta as pessoas para a cozinha. Muita gente aprendeu a cozinhar com _o Panelinha. Não tem que existir _a obrigação de fazer o melhor risoto, _o melhor isso ou aquilo. Usar a (alta) gastronomia como ferramenta _de status é muito chato. “Comi _sei lá aonde, tomei o vinho tal”, _isso é um porre!

O que você acha desses edifícios que já vêm com Espaço Gourmet?
Se funcionar para agregar, é legal, embora nunca tenha visto alguém num desses. Mas o mercado imobiliário tem feito as cozinhas abertas, o que é ótimo. Tem que integrar, o isolamento está em extinção. Até porque saudável _é preparar os alimentos, e fazer as refeições, em família. Priorizar _a alimentação é um caminho muito legal para as famílias. Muitos estudos mostram que isso influência em questões como depressão e obesidade. O ato de comer em família — que para mim é mais preparar a alimentação em família— vai muito além de nutrir o corpo. Quando os programas (de culinária) do Jaime Oliver mostram uma criança que sabe o que é catchup mas não o que é tomate, obviamente é porque não nunca viu um tomate, porque ninguém cozinha na casa dela. É muito importante sinalizar para as crianças uma alimentação saudável.

E como manter as crianças longe das “besteiras”, doces, frituras?
Minha filha chega da escola e pergunta se algo faz bem ou faz mal. Minha resposta é: “Se foi feito em casa, faz bem”. Não pode ter essa proibição de comer açúcar, isso ou aquilo. Claro que ficar dando biscoito recheado industrializado vai detonar o paladar. A criança vai comer uma fruta e achar amargo. O critério (da boa alimentação) é muita fruta, uma comidinha preparada em 10 ou 15 minutos, e saber que tudo feito em casa é saudável. Pode comer fritura? Pode. Vai no clube e come hambúrguer com batata frita. Em casa, não tem fritura. O óleo da fritura (descartado) na pia é um desastre ambiental, mas não só ambiental. É um desastre para o corpo também. O que faz bem para a gente faz bem para o planeta. Pensado no planeta, a tendência é diminuir (o consumo de) carne. Gosto que meus filhos comam, mas não em todas as refeições. E no Brasil temos uma riqueza enorme de grãos. Gosto de variar. Se um dia é feijão, no outro é lentilha, no outro grão de bico. Em vez de arroz, pode ser trigo, cuscuz, cevadinha.

Você foi modelo, tornou-se chef, passou a escrever sobre culinária para a Folha de S.Paulo e chegou _a ter um restaurante. Como foi essa experiência?
Ao escrever uma coluna para a Folha, conheci o Cliff (Li, chef chinês), que _se tornaria meu sócio em um restaurante mas, um mês antes de abrirmos, ele recebeu uma proposta e me deixou sozinha. No fim, a mulher dele (Patrícia), ficou como minha sócia. Ela cuidava do administrativo e eu do restaurante. Mas restaurante é muito puxado. Trabalhar à noite e não ter fim de semana é muito limitado, não gosto. Além disso, em restaurante todo dia o cozinheiro vem com um problema novo. Aí o Matinas Suzuki me falou que estava montando um portal (o iG) e perguntou se eu tinha vontade de criar um site _de gastronomia. “De gastronomia, não. De culinária, sim!” Fiquei um tempo com os dois, depois saí do restaurante.

Dentro da cozinha você sofreu preconceito por ser mulher e, além disso, bonita?
Olha, não só na cozinha, viu? (Risos). Mas, não, não. (Séria) Tinha até uma coisa engraçada, um cuidado comigo. Eu ia picar cebola e me falavam: “Deixa que eu faço isso”.

Você é vaidosa?
Excepcionalmente hoje estou com um esmaltezinho, mas não costumo fazer _a unha. São 40 minutos, uma perda de tempo absurda, não considero isso um cuidado. De uns anos pra cá, me sinto libertada por não fazer a unha.
É uma libertação.

E que cuidados tem com o corpo? Tem medo de engordar?
Não tenho feito ginástica. Gostaria, mas não consegui me organizar. Fico muito tempo sentada (na frente do computador) e dá dor nas costas. Sou de uma família de pessoas magras, mas dou umas engordadas. Quando me formei (cursou a Peter Kump’s School of Cooking Arts, nos EUA), engordei muito, uns 10 quilos. Tinha comida o dia inteiro e eu sabia que teria só aqueles seis meses para experimentar tudo, ir a todos os restaurantes de Nova York. Foi um investimento, mas valeu cada quilo. Agora, que estou em uma fase de testar receitas, estou gordinha. Esse é o meu gordinho, mas depois volta. Tem uma coisa engraçada nisso. Por eu ser magra, tinha o preconceito de, “ah, essa aí não cozinha nada”. Mas, pelo contrário, eu é que não quero comida de um chef gordo (risos).

E, num outro sentido, o ato de cozinhar também se torna algo sensual, afrodisíaco?
Não tenho essa conexão. Mas acredito que as mulheres têm dois momentos na vida em que podem aprender _a cozinhar. Um é quando se apaixonam, tem isso de querer fazer um jantar especial. Recebo emails perguntando “pode fritar a cebola antes do banho e fazer o risoto duas etapas?”. Pode, sim. Faz, vai tomar um banho e depois só finaliza (risos). O segundo momento é quando nascem os filhos. Porque realmente depois da amamentação, quando você se lembra que a criança precisa de comida, aí você grita: “papinha!”. Sou chef formada e fiquei muito preocupada com a papinha (risos).

O que você mais gosta de comer?
Fico muito feliz com comida básica e muito bem feitinha. Um purê de batata bem feito é a glória.

sábado, 28 de agosto de 2010

Tááá chegando a horaaaaaaa

Esses dias está liberado todo e qualquer excesso, mesmo aos corinthianos mais polidos, como esta que vos fala. Não é preciso pedir perdão. TUDO NOSSO, MALOCA! É aniversário, um aniversário especial, e a hora é de festa!

Aos amigos, trago boas novas sobre o nosso filme, o "Só quem é Sabe o que é". Este aqui, ó: http://www.youtube.com/watch?v=uQwXT5yAKT0

Depois de muito penar por esse mundão, decidimos que o que mais importa é colocar o trabalho na rua, de graça, pra quem quiser curtir e relembrar o que viveu com o time em 2008, e na vida toda. Ou seja: vamos soltar o filme na íntegra, de graça, na internet!!!

Tá marcado pra essa segunda, dia 30, no fim da manhã... 

Táááááá chegando a horaaaaaaaaaaaaa

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Nelson Rodrigues, se aqui estivesse

(originalmente publicada no Brasil Econômico)

Tá, eu não falei com ele de verdade... Mas que ele respondeu, respondeu!

(clique na imagem para ampliá-la)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ah, se fosse o Timão...

(originalmente publicado no Brasil Econômico em 06/08/10. Pra hoje tá meio velhinho, mas a sensação é a MESMA...)


Libertadores de rico



Não é por nada. Mas fosse o Corinthians a disputar uma final de Libertadores, o Hemisfério Sul estaria a ponto de explodir. Por mais que os são-paulinos desdenhassem dessa alegria de pobre, brega e exagerada, os corintianos estariam eufóricos, insuportáveis, repetindo a quem quisesse ouvir que, agora, chegou a NOSSA vez! Só com o Corinthians, só por causa da Fiel, só graças às mandingas de cadamaloqueiro em particular, só a nossa conquista seria inesquecível. A maior. A mais heroica. A mais... Opa! Dormiu no sofá? Então acorda pra ver os outros jogarem. Acorda e vá se acostumando à dureza de assistir — e secar — alegrias e batalhas alheias. Outras. De Santos, Vitória, São Paulo, Inter. Decisões que não lhe dizem respeito. Festas para as quais não foi convidado.


Do lado de fora do salão, o pobretão apenas espia, dividido entre o desdém, aquele mentiroso dar de ombros que sóquemperdeu algo que queria muito sabe fazer, e a coragem de assumir que queria estar lá. E, como no doce tirado da boca vinha escrito "Libertadores", desce ainda mais amarga a notícia de que, com a ida do mexicano Chivas à final, o vice-campeão dessa edição disputará o Mundial enquanto americano do Sul). Pô! Tava fácil! É, tava mas não rolou.


E mais.O Centenário chegou. Todos os dias o Corinthians me manda e-mails anunciando mais um imperdível “caramba-a-quatro-do-Centenário”. Não quero. Não quero o cinzeiro, a caneta, a almofada, a caneca, a milésima segunda camisa “oficial do centenário”. Queria é mantida a liderança do Brasileiro. Algum indício de que o time não vai sumir pela janela (de transferência). Uma saída de respeito pro Felipe. E que alguém dissesse ao Ronaldo que tudo bem ele ajudar o time só no apoio moral. Na real, queria um Centenário diferente dos “Sem-Ter-Nada” de Flamengo, Botafogo, Grêmio, Galo e Sport. E melhor que os de Fluminense, Inter e Vasco. Quer dizer, o Vasco ganhou a Libertadores (ó o assunto voltando...). Queria gritar Timão de boca cheia. Que nem pobre.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Grace Gianoukas e a Terça Insana


(originalmente publicada no Brasil Econômico 13/08/10)

Uma comédia de acertos

Há nove anos a Terça Insana, que é quase o sobrenome da atriz Grace Gianoukas, faz rir e pensar. Agora, o show volta à velha casa, em Pinheiros, SP



TEXTO Phydia de Athayde

Segunda-feira, para um ator de teatro, costuma ser o dia de folga depois do fim de semana de trabalho. Há nove anos, para o elenco do Terça Insana, segunda é só o intervalo entre a turnê e a apresentação “em casa”, na capital paulista. Esta, porém, é especial. Véspera de estreia. Ou melhor, da volta deste espetáculo que é um clássico do humor paulistano (e muito copiado) para o endereço que o consagrou, em Pinheiros. No mesmo bairro, em um prédio comercial fica a sede da produtora. Da portaria já é possível ouvir a voz grossa de Grace Gianoukas ao telefone. Não há como errar de sala. Ao me ver, ela abre um sorriso de Aline Dorel  personagem que é hit entre as esquetes presentes neste A Volta dos que Não Foram.

“A cada semana fazemos um show novo. Este é um tema atípico porque é um grande pout-pourri. Mas, em outubro, teremos um novo tema: Politicamente ou Correto?”, diz Grace, que dirige, atua e incentiva que o ator seja também o autor de suas falas. “Claro que estou ansiosa. Já revi todo o texto, preparei a trilha, agora quero colocar os ossos desse esqueleto no lugar”, diz, sempre ofegante, sempre jogando os cabelos para um lado e para o outro, sempre brincando com um cigarro apagado — ou fumando. Logo o papo entra no humor. “Não tenho obrigação de ser cômica o tempo todo. O humor pode ser irônico, sarcástico, desde que seja interessante e original.” A espetada tem endereço: “O que a gente vê na TV é o bullying, o humor juvenil, sem maturidade. Um humor que tem medo de não ter audiência”.

Mais tarde, Grace, elenco e técnicos se reúnem no Estúdio Emme para acertar músicas e luz de acordo com as cenas (são 14 no total). Não é um ensaio completo. O_centro da plateia está vazio, tem só uma mesinha, de onde a diretora e a produtora (que faz uma ponta) Luciane Adami acompanham as cenas.

“Pessoal, quem passar aqui, cuidado com esses dois fiozinhos. Um derruba uma pistola, outro faz um vestido voar”, avisa Arthur Kohl, atrás da coxia. “Hei, você acha que eu posso dar uma cambalhota com o microfone headset?”, Renato Caldas inquire o técnico de som. “Posso mesmo falar daquele russo da skavuska, né?”, confirma Agnes Zuliani. Mila Ribeiro refaz algumas vezes os passos do “flerte” com um contra-regra.

Arthur, Renato, Agnes e Mila são o elenco fixo — que por tradição é sempre renovado e já teve Luís Miranda, Marco Luque e Marcelo Mansfield, entre outros.

Grace dá sugestões, sempre boas, ri das cenas e também passa as suas. Não dá para não rir. A mulher é um monstro.

Na estreia, assisto a um outro show. Engraçado que algumas cenas funcionaram melhor no ensaio. Engraçado eu achar graça de outras, mesmo sem explodir de rir. Engraçado rever piadas que não sabia terem nascido aqui. Engraçado eu ir pra casa pensativa. Ou será insano?

TERÇA INSANA - ESTÚDIO EMME
AV. PEDROSO DE MORAES, 1036
$50 A $70. TEL (11) 3031-3290

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

entrevista com Shirley Mallmann



(originalmente publicada no Brasil Econômico, de 30/07/10)


“Meus filhos me abriram um outro mundo. Hoje o trabalho é um trabalho. Não é mais a minha vida”

texto Phydia de Athayde

ABRE:

Olhe bem para a mulher ao lado. Repare no azul dos olhos, no formato da sobrancelha, do nariz e da boca. No tom da pele. No tamanho das pernas, dos braços, e na proporção que formam com o tronco. Agora olhe-a de cima a baixo, num golpe só, e diga se não achou a roupa linda. Ou se não desejou estar neste sol, bem perto dela. Seja homem ou mulher, não há como escapar de uma fera em seu habitat. De Shirley Mallmann diante de um fotógrafo. Da beleza diante do resto do mundo. É o que somos. Rendidos, a admirar, sonhar, suspirar. A não ser que alguém esteja de TPM, aí logo encontrará um defeitinho. A moça é ossuda, meu Deus do céu. Tem algum osso aí? Pois ela própria os vê, e só recentemente aprendeu a se sentir bonita “apesar” deles.

Shirley Mallmann, a quem possa não saber, foi a primeira top model brasileira. Tudo bem que Dalma Callado agitou os anos 70, mas só os 90 teriam como fazer de um rosto, um corpo, este objeto de trabalho, algo onipresente no planeta. Nas capas das revistas de moda (do naipe “todas as Vogue”), nas propagandas de perfumes chiques (Classique, de Jean Paul Gaultier, e Allure, da Chanel), nos desfiles mais hot possíveis (Dior, Valentino, Prada, todos eles). Mallmann foi a primeira a experimentar algo que só a também gaúcha Gisele Bündchen viria a superar. E “isso é superbacana”, diz uma muito tranquila Shirley, do alto de seus 33 anos.

Ela está mais bonita que aos 17, quando saiu de Santa Clara do Sul para tentar a vida de modelo em São Paulo. E que aos 19, quando encarnava à perfeição o ícone de então, a muito magra e meio andrógina heroin chic

Shirley desembarcou do avião em Nova York com um motorista particular a esperando. Não falava inglês, mas se virava no alemão de casa, ou melhor, do sítio onde cresceu. Meteórica, foi do aeroporto para o estrelato fashion. Viveu todo o roteiro de conto de fadas que alimenta as milhares de meninas que até hoje se estapeiam em concursos de beleza mundo afora. Como em Cinderela sempre há uma madrasta ou algo mau à espreita, ela se jogou na vida louca dos backstages e festas de modelo, onde “te oferecem de tudo”: isso, aquilo, aquilo outro e aquilo outro também.

Depois de alguns anos nessa balada, “eu não tinha uma vida”, encontrou no amigo cabeleireiro (e surfista) a ligação com o mundo real, aquele do qual chorava de saudades ao telefone. Ao lado de Zaiya Latt, ela aprendeu a praticar wakeboard, snowboard e maternidade. Eles têm dois filhos, Axil e Ziggy, e vivem em Long Island, a duas horas de Manhattan. Depois de anos fora das passarelas, Mallmann desfilou em Nova York e abalou a última São Paulo Fashion Week. Já de volta à sua casa de praia, concedeu por telefone a atenciosa entrevista a seguir. Sua voz é grave. E linda.

ENTREVISTA

Como é sua rotina de trabalho?
Tenho muitos clientes de catálogo. O que paga as contas são os catálogos. Clico em dois ou três dias seguidos, em Manhattan, que posso ir de dia e voltar à noite, ou viajo para outro lugar. Acontece duas a três vezes por mês. Isso fora as viagens ao high fashion, que são os editoriais, desfiles. Como quando vim para o São Paulo Fashion Week (SPFW) e fiquei quatro dias. Foi engraçado, superdivertido, adorei.
Cheguei no dia do desfile da Adriana Degreas e fiquei os próximos quatro, desfile todos os dias, foi uma correria.

Essa agitação recente é algo que você buscou ou aconteceu?
Um pouco dos dois. Fiz um desfile em fevereiro (abriu a Semana de Moda de Nova York, para John Bartlett). Estava sem desfilar por causa dos meninos (os filhos Axil, de 8 anos, e Ziggy, de 2). É difícil ficar vários dias fora, mas depois desse desfile surgiram os convites do SPFW. Para mim é legal. Em primeiro lugar, é o meu país, adoro trabalhar no Brasil. Algo que gostei e, ao mesmo tempo, é bom para a carreira também. O desfile é uma vitrine para a modelo, então é bacana fazer, mas tenho que estar pronta para a batalha porque é uma correria.

Você vai voltar com tudo ou fazer apenas alguns trabalhos?
Quero fazer poucas e boas coisas. Não tenho condições de voltar àquela
loucura. Por mais que tenha sido incrível, que tenha gostado, passou. Não sou mais aquela menina. Minhas prioridades mudaram. Claro, a carreira é bacana, adoro o que faço, mas seleciono os trabalhos porque preciso balancear isso com a minha família. À medida que fui ficando mais velha, curtindo meus filhos, eles me abriram um outro mundo. Me tornei mãe, dona de casa. Somos quatro pessoas, somos uma família. O trabalho é um trabalho. Não é mais a minha vida.

Para entender melhor tudo isso a gente tem de voltar no tempo. Você estourou em 1996, poucos anos antes da Gisele Bündchen. Como viu a ascensão dela?
É algo que ia acontecer. Era questão de tempo vir outra menina do Brasil e estourar. Mas a Gisele estourou como nenhuma outra, foi incrível. Isso é superbacana.

Depois dela o Brasil definitivamente entrou na moda?
Todo o mundo já estava de olho no Brasil, tanto que a Gisele é de uma leva de meninas brasileiras. Ela se destacou entre várias que trabalharam superbem. No Brasil já estava acontecendo o SPFW,o (Carlos) Miele já estava aqui, o (Alexandre) Herchcovitch, os biquínis (da Rosa Chá) já estavam aqui, a Vogue Brasil já estava entre as grandes Vogues. O Brasil já estava acontecendo. A Gisele só deu mais um empurrão.

Essa onda de Brasil vai passar?
O Brasil está consolidado no mapa da moda. Não é uma febre que vai passar. Fazemos parte do grande circuito mundial. Temos grandes estilistas, grandes modelos, grandes marcas, grandes fotógrafos, grandes revistas. O Brasil cresceu muito como país nos últimos 20 anos, e a moda é parte disso.

Então vamos falar da sua participação nessa história. Você veio do Rio Grande do Sul para São Paulo com 17 anos. Até quando conseguiu estudar?
Fiz vestibular para contabilidade em uma faculdade federal, mas não passei (risos). Meus pais não tinham dinheiro para faculdade particular. Terminei o colegial e fiquei aquele ano trabalhando em uma fábrica de calçados. Nessa idade a gente não sabe direito o que quer da vida. Aí surgiu a oportunidade de fazer alguns trabalhos de modelo em Porto Alegre. Os convites foram vindo, fiz alguns desfiles, fui ganhando roupa, uma graninha. O salário mínimo era uns cento e poucos reais, o que eu ganhava na fábrica, e lembro que com um comercial de TV ganhei R$ 400. Aquilo me entusiasmou a tentar. As agências diziam que eu tinha que ir para São Paulo. Estava com 17 anos e fui.

Que lembranças tem desse período?
Estava superentusiasmada, achava que seria o máximo, mas a realidade não foi tão glamourosa. Eram oito meninas dividindo um apartamento que não era bacana, não tinha telefone, só um bipe para todas. Tocava o bipe, todo mundo corria e uma ia até o orelhão (risos). Nossa, foi difícil. Eu não tinha dinheiro, ninguém tinha dinheiro, a gente não ganhava nada da agência.

Faltava comida?
Sim, porque tinha que dividir o dinheirinho, era muito pouco. Ou eu almoçava, ou jantava. Alguns restaurantes tinham convênio para receber grupos de modelos. Eu tinha que ligar e pedir para ser posta na lista das que iam almoçar nesses restaurantes (risos). Era difícil.

Como foi sair do Brasil?
Fiz alguns trabalhos que geraram uma graninha, saí do apartamento
das modelos e fui morar em um flat, mas logo depois fui para o exterior. Muitas vezes as meninas vêm para cá (os EUA) testar, ver como o mercado as recebe. No meu caso, como tinha trabalhado com uma fotógrafa muito famosa, a Ellen Von Unwerth, ela foi a madrinha que me tirou do Brasil. Uma semana depois de me fotografar, me chamou para fazer a Vogue America, em Nova York. Isso raramente acontece. Você lá do Brasil, sem ninguém te conhecer, ser bookada (chamada) para um editorial da Vogue America...

É sorte?
Olha, é uma luz, viu? Difícil de explicar. É cair nas graças da pessoa certa, que tem o poder de falar “eu quero essa modelo” para a VogueTambém é ter o look certo naquela hora. Era o finalzinho da era das grandes modelos e fui trazida do Brasil como a próxima promessa. Uma coisa montada, sabe? Pelos agentes, pelos fotógrafos, pela Vogue. Eles fazem isso. Literalmente, desci do avião, nunca tinha pisado em Nova York, não falava inglês, e já tinha um motorista esperando. Cheguei na agência, o dono (Paul Roland, da agência Women, referência nos anos 90) cortou meu cabelo, me levou para fazer shopping, a um cabeleireiro para retocar minha cor, me montou inteira, bateu duas fotos e me mandou para a Vogue. Ele me mudou inteira.

Você estava pronta para o que veio?
Ninguém está preparado. Saí do Brasil com uma passagem na mão, sem muito dinheiro, sem referência. Todo mundo estava esperando para ver o que ia acontecer. 

Podia ter dado errado...
Claro, a Vogue podia ter dito: “Ellen, você está louca” (risos).

Desde o início você tinha segurança para posar ou aprendeu aos poucos?
Isso é algo que se tem naturalmente. Eu não sabia que tinha. Desde a minha primeira foto, gostaram de mim, falaram que eu era uma grande modelo, que tinha de continuar. Isso com certeza é sorte e, não quero falar que é natural, mas é. Ou você está confortável na frente da câmera ou não está. A partir da semana que cheguei, e me considero muito sortuda nisso, trabalhei com todos os grandes fotógrafos, exceto o Irving Penn. Peter Lindbergh, Patrick Demarchelier, (Richard) Avedon, (Steven) Meisel...

Como se virava sem falar inglês?
Com a Ellen, falava alemão. Com o Peter, também. Com o Patrick, não falava nada, que ele era francês (risos). Mas conheci um espanhol, o Raul, que estava em todos os castings (seleção de modelos) e me ajudava, era um fofo. Em seguida fui bookada para uma campanha da Dolce Gabbana com o Steven Meisel. Não sabia quem ele era. Para mim, só mais um gringo que eu não conhecia. E quem estava lá? O Raul. Ele era o braço direito do Meisel, que, depois disso, se tornou outro padrinho meu. Me bookou para ser capa da Vogue Itália, todas as Vogues. Fotografar com ele põe o nome de uma modelo em um outro nível.

E como era quando você não estava trabalhando?
Muita solidão. Não conhecia ninguém, não tinha amigos. As meninas que moravam comigo, uma inglesa e uma jamaicana, eram gente boa. Mas a roommate delas estava fazendo tudo que elas sonhavam, então elas me marcaram como alguém de quem não gostavam. Eu ligava chorando para o Brasil. Todos os dias. “Não quero mais ficar aqui, Vogue America que se dane, quero ir para o Brasil, tô com fome, tô sozinha, quero ir embora” (risos). Uma vez, no aniversário da minha irmã, todos os meus amigos do Rio Grande do Sul fizeram uma festa e me ligaram. Foi a pior coisa que podiam ter feito. Chorei tanto, tanto.

E que tal o lado bom dessa vida, os bastidores dos desfiles, as festas?
Hoje em dia cortaram muito isso. A lei caiu em cima, o que é uma coisa boa, porque era uma loucura. A maioria das meninas é menor de idade. A gente chegava e o backstage era realmente uma festa. Champanhe, isso, aquilo, comida, fotógrafos te badalando, convites para sair, para isso, para aquilo, sabe? É complicado para uma menina. Você quer aproveitar tudo. “Que legal, vou poder ir ali, aqui, vou conhecer tal e tal pessoa”, “Hoje vi a Madonna, meu Deus do céu”. Isso aconteceu. Quando a vi, fiquei uns cinco minutos só olhando para a mulher. Mas coisas assim aconteciam todos os dias. Claro que tem uma exuberância,
uma adrenalina, mas aquilo tudo era surreal, não era a minha vida. Eu voltava sozinha para o apartamento e ligava para casa. No dia seguinte, era aquela loucura de novo.

Sentia-se entre dois mundos?
Aquilo não era eu. Nunca consegui cair confortavelmente naquela loucura, ficar naquilo. 

Deve ser muito fácil se perder, abusar das drogas...
Tive sorte por ter 19 anos. Não que estivesse madura, mas não tinha 14. Tive uma formação, uma família boa. Isso ajudou muito.

Como aconteceu sua gravidez, não planejada, aos 24?
Tinha conhecido meu namorado, que hoje é meu marido (Zaiya Latt). Ele era cabeleireiro e o conheci num desses backstages malucos. Por dois anos fomos amigos. O Zaiya é de Long Island (onde ela mora hoje, a 2 horas de Manhattan), da praia, e saía desse mundo louco para surfar. Ele tinha 28 anos e eu, 21. Quando o encontrei, pensei: “É você que estou procurando”. E ele começou a me tirar de Manhattan, me levar a restaurantes bacanas, a boates que não eram aquela loucura, uma coisa mais normal. Comecei a aproveitar a vida. Desde minha chegada, só tinha trabalhado e vivido a vida louca. Começamos a sair com os amigos, ir a barzinhos, assistir um filme, acampar, fazer snowboard. Fazer uma vida. Alugamos um apartamento e, dois anos depois, engravidei. Queria um pouco mais de rotina, de tempo para mim.

Chegaram a se casar?
Quando o Axil tinha 9 meses a gente se casou no Brasil, numa igreja lá no Sul, na minha cidadezinha. Depois voltamos para cá e casamos no civil.

A maternidade a fez dar essa parada profissional?
Para, né? A vida muda. Não sabia o quanto. Quando o bebê nasceu, achei que poderia levá-lo comigo. Todo mundo tinha cachorro, achei que podia levar um bebê (risos). Não tinha ideia do que era a vida com uma criança. Depois que o Axil nasceu, fiz alguns desfiles, um especial para a Dior, um para o (Alexander) McQueen, uns dois ou três em Nova York. Desde que ele tinha três anos, não desfilei mais. Engravidei do Ziggy, tive o Ziggy, e não estava pensando em voltar. Mesmo hoje, não poderia voltar completamente, fazer todo o circuito.

Em que você se envolveu nesse período, além da maternidade?
A gente viaja bastante. Essa vida na praia é algo que eu sempre quis. Compramos um barco maior, faço wakeboard. No inverno, snowboard. Comecei a ler mais, a cozinhar, a receber mais os amigos e a viajar mais para o Brasil. Quando venho para cá, fico no Sul porque quero que meus filhos passem cada minuto com meus pais, eles são os únicos netos (Shirley é mais velha de três irmãs). O Ziggy só fala português, porque a babá é brasileira, e o Axil fala com sotaque.

Você disse que “agora se acostumou” com seu corpo. O que não gostava nele?
(Suspira) Sou magra, sou ossuda, não sou uma mulher normal (risos). Cresci no Brasil, minhas amigas tinham curvas, eram consideradas mulherões, e eu sempre aquela coisa meio alien. À medida que fui ficando mais velha comecei ficar mais confortável com o fato de que meu corpo é diferente. Me aceito como sou e me acho bonita.

Você manteve o peso que tinha antes dos filhos?
O corpo mudou de formato, mas o peso é o mesmo, 57, 58 (quilos). Até  hoje tenho esses ossos para fora, mas meu peito diminuiu, e minha cintura aumentou um pouquinho. Mudaram as proporções.

Tem celulite?
Tenho celulite (risos)! Toda mulher tem. Mas não tenho muita, e as estrias são mínimas, ficam embaixo da linha do biquíni. Acho que Deus me ajudou nessa (risos).

Você fez ou pretende fazer plástica nos seios depois de ter amamentado dois filhos?
Não. Nem cogito, não é algo que queira. Nunca fui peituda, mas depois de amamentar dois meninos, meu peito diminuiu. Faria tudo de novo (amamentar). Essa é uma questão muito pessoal. Me gosto assim. Não me importo de ter peito pequeno.

Ainda sobre corpo, no Brasil chegou-se a ameaçar pesar as modelos antes para impedir que anoréxicas desfilassem. O que acha disso?
(Suspira) Ah, é difícil opinar. A modelo é um manequim, o trabalho dela é mostrar a roupa do melhor jeito possível e realmente na mulher magra a roupa não gruda, não puxa. Existe um padrão de medidas e, se estiver dentro dele — quadril de 88 a 90 centímetros, cintura 59 a 60 e busto, uns 88 — a modelo está bem. A menina alta e ossuda tem que ser mais magra e aí está o problema. As agências, os clientes, falam para ela emagrecer, e se ela não tem orientação, fecha a boca e começa
a ficar anoréxica, a sofrer bulimia...

Você já teve algum tipo de problema alimentar?
Não, mas já fiz dieta. Quando saí do Brasil minha dieta era baseada em legumes, salada e proteína. No começo da minha carreira, caí naquilo do heroin chic. Eu era o look típico: muito magra, muito branca, uma cara andrógina e meio de anoréxica, sabe? Aquilo foi um boom. Por dois anos fiquei daquele jeito porque era como queriam.

Você se sentia bem?
Era difícil, mas a gente acostuma. Não que eu comesse mal, só não comia açúcar nem pão, e pouquíssima gordura. Não se pode viver assim para sempre, mas funcionou para aquela época.

Comemorou quando passou a moda?
(Risos) Logo depois comecei a comer carboidrato, meu corpo deu uma
acalmada, e engravidei.