(Esperei quase dois anos para fazer esta reportagem. No começo, a idéia era boa, mas ainda era só uma idéia. Depois, as coisas já estavam acontecendo, mas faltava o momento certo para sugerir a pauta. Finalmente, em dezembro fui conhecer o pessoal da Rukha, a "ong dos playboys", e pude acompanhar uma reunião do grupo e também visitar os projetos, no meio do Capão Redondo. Acho uma notícia e tanto manos e playboys reconhecerem objetivos comuns e trabalharem juntos. E achei muito legal ir ver qual é. O texto acaba de sair, na edição 480 da CartaCapital)
Pontes em São Paulo
Por Phydia de Athayde
Todas as quartas-feiras pela manhã, um Ford EcoSport e, por vezes, uma Land Rover, atravessam os quase 20 quilômetros que separam o valorizado bairro do Itaim Bibi do pobre e violento Capão Redondo, na zona sul paulistana. Os veículos terminam o trajeto em frente a uma casa alugada, o chamado “Posto Avançado” no Capão. São quase 9 horas e está para começar a reunião semanal do Instituto Rukha, ou a “ONG dos playboys”, numa classificação provocativa, mas não de todo errada.
Enquanto coordenadores e educadores se acomodam na sala, Rosemeire Silva Santos chega no recinto e cumprimenta a todos. Ela é mãe de Lucas, de 11 anos, que até o ano passado podia ser encontrado pedindo dinheiro para Land Rovers e EcoSports nos semáforos do Itaim. “Eles chegaram até mim através dos meus filhos”, diz, referindo-se ao Projeto Virada (o primeiro do Rukha), que consiste em abordar e convencer não apenas a criança, mas a família, a deixar de esmolar em troca de freqüentar escola, projetos socioeducativos e cursos de formação. E de uma bolsa mensal de 350 reais – menos, é bom frisar, do que se ganha nos semáforos.
Meire topou. Tornou-se líder comunitária. “Eles oferecem não só a virada da criança, mas dos pais. Eu tinha muito ódio, era agressiva, e hoje me vejo capaz de perdoar, de mudar. Sei que posso até ser uma possível conselheira tutelar”, ambiciona.
Às 9h20, Marcelo Loureiro, empresário, criador da grife Mandi, pinta de surfista, olhos azuis, abre a reunião. Hoje está ausente outro empresário, o milionário e fundador do Rukha, Marcos de Moraes.
Yusaku Soussumi, psiquiatra e pesquisador em neuropsicanálise, também fundou a ONG. Assim como metade dos presentes, Soussumi atravessou a ponte para chegar ao Capão. Geograficamente, significa deixar o centro desenvolvido da cidade, vencer os poluídos rio Pinheiros ou Tietê, e adentrar a periferia. Mas também tem outros sentidos.
Ice Blue, integrante do grupo de rap mais influente do País, os Racionais MC’s, pinta de artista, negro, ex-favelado, também atravessou alguma ponte para estar ali, como colaborador do Rukha. “Já não me encaixo na favela, também não sou playboy, sou mais classe média. Mas é uma mudança de valores muito radical. Entro em conflito toda hora”, admite o rapper. Em dezembro, Blue dividiu o palco com Luciano Huck (aquele, da polêmica do Rolex roubado) no festival de música Power to the Peaceful, que teve renda revertida para os projetos do Rukha.
Na reunião, Loureiro diz ao grupo que a bilheteria não rendeu o esperado. “Mas, no final, os patrocinadores estavam ali, maravilhados, e aproveitei para pedir mais 20 mil reais de cada um”, diz. Com isso, o festival rendeu 155 mil reais.
Mas os ganhos parecem ainda maiores. Marcio Blatt Braun, morador de Santa Cecília (no centro de São Paulo), educador, fala de aproximações. “Os caras do Periferia Ativa até me chamaram pra assistir a um jogo de futebol com eles”, afirma, referindo-se aos integrantes do grupo de rap Negredo, que cuidam da Biblioteca Êxodus, outra parceira do Rukha. A biblioteca, no miolo da favela, foi criada pelo rapper Mano Brown e pelo escritor Ferréz (aquele, da polêmica do Rolex roubado).
“E eu? Tava conversando com um cara durante o show, mó gente boa, depois soube que ele era um puta ricão. Eu, que tinha uma visão de que todo boy é foda”, acrescenta, meio encabulado, meio rindo, Johnny William Borges, morador do Capão e também educador do Instituto.
Conhecer o Rukha é curioso por ser tão contraditório e tão real. A começar pelo nome, que em aramaico significa “sopro de vida”. Quem é da favela pronuncia “rúka”. Quem não é, “(u)rúrra” – iniciando com o som do erre entre vogais. Só ouvindo pra entender.
Ice Blue fala “rúka”. Marcelo Loureiro, “(u)rúrra”. Os dois se conheceram em 2003. Blue gostou quando Loureiro não tremeu diante do convite para conhecer “o lado de lá” da ponte. Loureiro gostou da chance de aproximar os dois lados. Para a Rukha surgir como ONG, Marcos de Moraes exigiu o que chama de “excelência na gestão do negócio”, como explica Luiz Alfaya, diretor-presidente do Instituto, ex-publicitário, olhos azuis que brilham quando fala do trabalho.
A reunião termina perto das 11h30. É hora de dar um giro pelos projetos parceiros. A começar pela Êxodus, por onde se chega depois de percorrer 20 metros de uma viela estreita e coberta, que mais parece um túnel grafitado. Lá, Alexandre Rocha, o DJ Alê, que também é produtor do Negredo, conta a história do local. Além dos livros, há cursos de vídeo, de dança de salão e de DJ. Ele, mano, fala da chegada dos playboys por ali.
“Pode parecer que a gente tem problema com o outro lado, mas a gente não tem. Só não queremos ser tratados como coitadinhos”, anuncia. “Quando eles chegaram, a gente deu corda pra ver qual era, se era oba-oba ou se era pra ajudar de verdade. Tem muita ONG que é fachada, lavagem de dinheiro, mas eles estão pegando os lugares que têm um trabalho sério”, acredita.
A poucas quadras dali fica a Escola Estadual Café Filho, cuja biblioteca foi reformada pelo Rukha (por meio da Parceiros da Educação, iniciativa de outro empresário, e “playboy”, Jair Ribeiro). Em frente à escola há uma pracinha simpática, com muros grafitados e brinquedos de madeira. “Aqui era um matagal, tinha até cachorro morto”, diz Alfaya. O Rukha quis reformá-la e descobriu que ONGs, subprefeitura e associações de bairro não se falavam. Pior, competiam. “Foi quase um ano de conversa até eles decidirem cuidar juntos da praça. Inclusive a subprefeitura, já que não há solução que não passe pelo Estado”, prega Alfaya.
Mais algum sobe-e-desce pelo bairro, que alterna casas de classe média baixa com vielas que levam a favelas propriamente ditas, como a que abriga o Capão Cidadão. Alfaya estaciona ao lado do campinho de futebol da ONG e, ao sair da EcoSport, é enquadrado por dois garotos:
– Você é da onde? Da Rúka?
– Sou. E você? É do Virada?
“Sou”, responde um orgulhoso Julio César, de 14 anos. “Eu também queria, mas não tem vaga pra mim”, reclama Diego Rocha, também de 14 anos. Os meninos cumprimentam Alfaya com o gestual da periferia: batem as palmas das mãos e, depois, batem as mãos fechadas em punho. E correm para o campinho.
O giro ainda inclui a Casa do Zezinho, instituição multidisciplinar que há mais de 14 anos educa crianças, os “zezinhos”, e orienta as famílias. Ao contrário dos outros parceiros, com trabalhos incipientes, a Casa anda sozinha há muito. Então o Rukha decidiu fazer um documentário para contar essa história. E atrair mais patrocinadores. “Eles atravessam a ponte”, enxerga Tia Dag, responsável pela Casa, e conclui, resumindo a onda desses playboys: “Eles levam daqui pra lá, de lá pra cá. É isso que tem de ser feito”.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
desejo e reparação
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Phydia de Athayde
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
olhares sobre a maconha
A Folha de S.Paulo de hoje, bem como a capa do Uol, destacam a notícia de que há mais substâncias tóxicas na fumaça de um cigarro de maconha do que na de um cigarro de tabaco. É importante. Informação que tem de ser divulgada e conhecida.
...Mas não deixa de ser curioso notar como, em geral, não se divulgam notícias neutras ou positivas sobre maconha. Goste-se ou não, elas também existem. E são referendadas pela mesma Ciência e Medicina. É importante. Informação que tem de ser divulgada e conhecida.
Este ano o jornal O Globo publicou uma meia página (em uma edição de sábado, se não me engano) sobre um livrinho, pequeno e esclarecedor, sobre o papel medicinal da droga.
Li o livro e a curiosidade me levou a entrevistar um dos neurocientistas autores de Maconha, cérebro e saúde. Com propriedade, ele desanca mitos como a "morte" de neurônios e a perda memória decorrentes do uso da droga, enquanto reforça a eficácia dela no alívio da dor severa. A entrevista saiu na edição 471 da CartaCapital (de 21/11/07) e reproduzo aqui:
O cérebro e a maconha
O neurocientista Renato Malcher-Lopes desfaz mitos sobre a droga
a Phydia de Athayde
Os atributos medicinais da maconha são velhos conhecidos do homem. Nesta terça-feira, 6 de novembro, um estudo da Universidade da Califórnia indicou que um composto da droga pode ser usado no tratamento da depressão. Há mais de 3 mil anos, um texto sagrado do hinduísmo a descrevia como capaz de aliviar a ansiedade e como fonte de alegria e regozijo. No Tibete e no Nepal, é tradicionalmente utilizada no tratamento de ulcerações, reumatismo e inflamações de ouvido, além de agir como anticonvulsivo e antiespasmódico em casos de epilepsia e tétano. Mas a tradição nada tem a ver com o papel hoje reservado à droga, substância ilegal mais consumida no mundo e alvo da política antidrogas norte-americana, com reflexos mundiais.
Na última década, a descoberta de substâncias produzidas pelo cérebro que agem de forma similar à da maconha (os endocanabinóides) reabriu a discussão sobre os benefícios terapêuticos da droga. Dois cientistas brasileiros acabam de unir conhecimentos e as mais recentes pesquisas sobre o tema para lançar Maconha, cérebro e saúde (Ed. Vieira & Lent, 22 reais). Um dos autores, o neurocientista Sidarta Ribeiro, que descobriu como o sono e os sonhos atuam na organização das memórias, é diretor de pesquisas do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), um dos mais promissores pólos científicos do País. O outro, o neurocientista Renato Malcher-Lopes, apresentou um projeto de pós-doutorado na Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, e, atualmente, trabalha no Centro de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Malcher-Lopes participou da descoberta da regulação hormonal dos endocanabinóides e pesquisa a atuação da leptina e outros hormônios no controle do apetite e no equilíbrio fisiológico.
A partir do paralelo entre os endocanabinóides e os canabinóides da maconha, o livro traz uma nova maneira de entender os mecanismos de ação da droga na saúde, na mente e no comportamento. Na entrevista a seguir, Malcher-Lopes explica como a maconha atua no cérebro, destaca os riscos à saúde, defende os benefícios terapêuticos comprovados pela ciência e, principalmente, desfaz mitos.
CartaCapital: Quais lacunas no conhecimento sobre a ação da maconha no cérebro o livro busca preencher?
Renato Malcher-Lopes: Por nossa formação em biologia molecular e em neurobiologia, resolvemos mostrar como processos biológicos de dimensões moleculares se relacionam com experiências mentais e com o comportamento. A grande novidade para o público leigo é a constatação de que o organismo produz substâncias semelhantes aos princípios ativos da maconha, os endocanabinóides, dentro de um sistema de regulação extremamente importante para quase todos os aspectos da fisiologia. Uma conseqüência desse novo conhecimento é a maior compreensão dos mecanismos por trás dos efeitos medicinais da maconha e dos problemas causados pelo uso abusivo.
CC: O livro menciona um estudo holandês, publicado neste ano, que concluiu “não haver perda detectável de tecido nervoso em usuários crônicos de maconha”. Tal informação contradiz o discurso comum de que a droga produz danos irreversíveis ao cérebro. Quem está com a razão?
RML: A preocupação de que a maconha possa danificar o cérebro é legítima. Felizmente, contudo, as evidências indicam que este não é o caso, o que representa uma notícia muito boa, já que muitas pessoas poderão ter seus sofrimentos reduzidos, sobretudo doentes de câncer recebendo quimioterapia e pessoas que sofrem de dores severas para as quais os atuais analgésicos, com exceção da morfina, não são tão eficientes. Nunca houve consenso científico de que a maconha pudesse causar danos cerebrais.
CC: A droga, segundo outra pesquisa mencionada, ajuda a proteger os neurônios durante processos degenerativos como o mal de Parkinson ou Alzheimer. E em indivíduos saudáveis? Os neurônios “morrem” ou são preservados?
RML: Não há nenhuma evidência de que a maconha cause morte de células de qualquer tipo em pessoas saudáveis ou não. Por outro lado, há componentes na maconha que podem proteger os neurônios de processos degenerativos em qualquer pessoa. Mas o uso abusivo pode aumentar o risco de surtos psicóticos em quem tem predisposição à esquizofrenia.
CC: Os Estados Unidos vivem um dilema entre permitir e reprimir a aplicação medicinal da maconha. No Brasil, a hipótese nem sequer é cogitada. Por que o uso terapêutico da droga enfrenta tantas barreiras?
RML: No Brasil, o maior entrave são as leis e o estigma que elas trazem. Os obstáculos ao uso médico da maconha não encontram respaldo nem nos preceitos médicos nem no conhecimento científico. Remédios precisam ser testados clinicamente para averiguação de eficácia e segurança em humanos, e isso já foi feito para várias propriedades terapêuticas da maconha. O fato de a maconha ser mais eficiente como remédio quando inalada sempre foi um inconveniente, já que nenhum médico se sente confortável ao ver o paciente encher os pulmões de fumaça. Mas hoje em dia existem vaporizadores que permitem a inalação dos princípios medicinais da maconha sem a contaminação pela fumaça, poupando os médicos desse dilema.
CC: O livro diz que a maconha atua na formação de memórias, em contradição com o do discurso comum, que associa a droga à perda de memória. Por que isso acontece?
RML: O consumo da maconha afetará de duas formas a memória de trabalho – aquela usada para manter na mente um número de telefone que acabamos de escutar, por exemplo. Durante os efeitos inebriantes da droga, essa memória fica bastante reduzida. Quando os efeitos agudos passam, existe ainda um efeito residual, bem mais fraco, que pode perdurar por várias horas. Se o sujeito fuma maconha o tempo todo, estará sempre sob um ou outro nível de efeito, o que prejudicará o aprendizado de novas coisas, mas não causará o apagamento ou afetará a recapitulação de memórias já consolidadas. Não há, portanto, evidências de efeitos permanentes na memória. Por outro lado, é importante salientar que, além de prejudicar seriamente o aprendizado, o uso de maconha certamente reduzirá a motivação para o estudo dos jovens em idade escolar.
CC: Como o cérebro se refaz da desorganização do processamento de informação provocada pela maconha?
RML: O que parece ocorrer sob o efeito da maconha é um reordenamento no fluxo de informações entre os circuitos neuronais, tornando-o menos rígido. Em tese, esse afrouxamento lógico ajuda a explicar a dificuldade no uso da memória de curto prazo, enquanto permitiria a interconexão mais fluida entre idéias, conceitos e emoções. Os canabinóides da maconha atuam como chaves que abrem essas interconexões de forma mais ampla, intensa e menos seletiva do que a que ocorre naturalmente. Quando o efeito acaba, o cérebro volta ao seu estado normal de funcionamento. Tudo indica que nesse estado normal os endocanabinóides ajam de forma semelhante aos canabinóides exógenos, porém, o fazem de maneira muito mais precisa, atuando em momentos específicos e de forma seletiva em determinados circuitos neuronais. Nós acreditamos que isto ocorra em processos neuronais envolvidos normalmente no reaprendizado e na criatividade.
CC: O que se pode afirmar sobre dependência de maconha?
RML: Ela não causa dependência fisiológica, mas pode causar dependência psicológica. A interrupção abrupta do uso crônico normalmente não causa transtornos fisiológicos, mas, sim, mau humor exacerbado, diminuição do apetite e intensificação dos sonhos. Há relatos raros de ocorrência de náusea, mas, de uma forma geral, os sintomas da abstinência de maconha caracterizam uma dependência psicológica, relacionada aos efeitos nos circuitos cerebrais associados a sensações prazerosas. Embora seja relativamente moderada, essa dependência pode ser agravada em pessoas que apresentem estados depressivos ou transtornos psicóticos. A incidência de dependência em maconha é considerada baixa se comparada às do álcool, do cigarro, da cocaína e da heroína.
CC: Quais os riscos ao cérebro da associação de maconha com outras drogas, tanto lícitas quanto ilícitas?
RML: Ainda não há estudos sobre possíveis danos cerebrais causados pela interação da maconha com outras drogas, mas tais interações certamente afetam outros aspectos da saúde. O uso concomitante de álcool e maconha, por exemplo, fará com que uma droga potencialize o efeito sedativo da outra, o que pode gerar sintomas de depressão. A combinação de maconha com qualquer droga antidepressiva, como a fluoxetina (princípio ativo do Prozac), pode, em casos raros, gerar transtornos psicóticos e deve ser evitada. A interação com drogas estimulantes, como cocaína e café, pode ser prejudicial para pessoas com propensão a problemas cardiovasculares. E o uso de maconha em associação ao cigarro normal pode potencializar os efeitos danosos que a fumaça causa ao pulmão. Por outro lado, a maconha também interage sinergisticamente com outros analgésicos, mas esta é uma interação desejável no tratamento de dores severas.
CC: Qual a sua opinião sobre a legislação brasileira, que pune o traficante e tolera o usuário de maconha?
RML: Tomando como base as informações científicas e considerações éticas, defendemos a regulamentação da pesquisa clínica e do uso médico da maconha, que representa uma forma eficaz e barata de aliviar o sofrimento e melhorar o prognóstico de muitos doentes.
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Phydia de Athayde
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
moradia popular
...O surgimento (rápido) de uma parte da favela Real Parque e a desocupação feita pela polícia, que causou um congestionamento monstro e - muito por isso - foi notícia esta semana são dois lados de uma mesma história. E que costuma ser mal contada. Tem o oportunismo de quem ergue barracos de olho na indenização paga pela prefeitura, tem o problema sério (e real) da falta de moradia no País, tem a truculência da polícia, tem a maneira simplista como a tevê costuma resumir a história... E por aí vai. É complicado entender o problema sem ao menos tentar saber a que mais ele está ligado. Cidade, política, gente, grana, especulação, malandragens lá e cá, boas intenções, más gestões, enfim.
Talvez para ajudar, embora também não seja uma análise completa, tem um texto que eu fiz pra edição de 05/12 da CartaCapital. Fala sobre a falta moradia no país e do que pode ser feito pelo governo federal a respeito (além do que já está sendo feito, pelo menos na parte de organizar o rolo todo...).
por Phydia de Athayde - com a colaboração da Eliane Scardovelli
“Lá não tem favela como aqui, os barracos são feitos de palha de babaçu”, explica Bismarque Roberto de Sousa Miranda, maranhense que vive em Tocantins. Ele coordena o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) e está em Brasília para a 3ª Conferência Nacional das Cidades. Na bagagem, a constatação de que nem a mais jovem capital brasileira, Palmas (de 1989), escapa de problemas comuns às grandes metrópoles. “A classe trabalhadora mora em cortiços na periferia enquanto a elite mora no centro. O próprio estado criou um bairro para moradia popular, mas fica distante 30 quilômetros”, diz e crava: “A cidade foi planejada para excluir”.
Miranda e outros quase 3 mil participantes da conferência, que aconteceu entre 25 e 29 deste mês, acreditam ser possível transformar a realidade urbana, e que isso só é acontecerá com participação da sociedade.
Na edição anterior da conferência, em 2005, o presidente Lula não compareceu. Desta vez, foi recebido com aplausos na cerimônia de abertura e fez um discurso afinado com as expectativas do público, formado em boa parte por representantes de movimentos sociais.
Lula disse esperar “um dia acordar e não ter mais palafitas no País”. Agradeceu a presença dos representantes de conselhos municipais e destacou que conferências anteriores resultaram em projetos e, depois, em leis. Como exemplo de ação conjunta entre governo e movimentos sociais, o presidente mencionou a aprovação do marco regulatório do saneamento básico.
Lula também se disse favorável ao aproveitamento de prédios públicos vazios para moradia. Estima-se que existam, no Brasil, 6,7 milhões de domicílios vagos, 5 milhões deles localizados em área urbana, e uma parcela ainda não calculada pertencente à União.
Hoje, mais da 80% da população brasileira vive em área urbana. Ou tenta viver, já que milhões não têm onde morar, ou amontoam-se em favelas e similares. A medição mais recente, do IBGE com dados de 2005, indica que faltam 7,9 milhões de moradias no País (tabela ao lado). Outra pesquisa, ainda inédita, do Centro de Estudos da Metrópole, descobriu que há mais de 12,5 milhões de brasileiros – o dobro do apontado pelo IBGE – vivendo em locais precários, carentes socialmente e sem infra-estrutura adequada.
A Conferência Nacional das Cidades é importante porque, além de discutir questões técnicas e legais, é uma iniciativa governamental para fazer surgir um modelo de desenvolvimento urbano que incorpore participação social. A instância criada para isso é o Conselho das Cidades, formado por 86 representantes da sociedade civil organizada e das três esferas de governo.
Quase um terço dos participantes da conferência são ligados ao Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU), referência no assunto por representar os principais movimentos sociais nacionais, diversas ONGs, entidades profissionais e instituições de pesquisa ligadas ao tema.
Benedito Roberto Barbosa, o Dito, é dirigente nacional da Central de Movimentos Populares (ligada ao FNRU) e está feliz com as conquistas em Brasília, resultado de 3.175 conferências locais realizadas durante o ano. “Agora é o momento de descer para a prática”, diz. “Cria-se uma expectativa muito grande. Mas, entre a decisão política e a efetivação o processo, tudo é muito lento, sem falar dos conflitos entre governos”.
Uma antiga reivindicação foi atendida já na abertura da conferência, com a sanção da Medida Provisória 387 pelo presidente Lula. Entre outros itens, a MP dá acesso para associações comunitárias e cooperativas ao Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS). A sanção é um momento histórico para os movimentos sociais, pois partiu deles, nos idos de 1992, o projeto de lei de iniciativa popular que criou o Fundo e também o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, em 2005.
Do total de 1 bilhão de reais do Fundo, um décimo (100 milhões de reais) será destinado às associações e cooperativas, com critérios como a experiência na produção da moradia e a aprovação do projeto pelo Ministério. Os restantes 900 milhões de reais irão para projetos de estados e municípios, sendo 450 milhões para construção de moradias, 400 milhões para urbanização de assentamentos precários, 20 milhões para assistência técnica e 30 milhões para elaboração de planos habitacionais, de acordo com o Ministério das Cidades.
O Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) tem medidas para as áreas de saneamento e habitação e também é visto como uma conquista. Márcio Fortes estima cerca de 150 bilhões de reais a serem liberados nos próximos quatro anos. O governo também lançará o PAC da Mobilidade Urbana, para investimentos em transporte público.
A sanção da MP 387, a destinação de investimentos federais para o desenvolvimento urbano, o compromisso de destinação de imóveis da União para moradia popular e a aprovação da resolução que cria o Programa Nacional de Construção e Moradia são as principais “vitórias” da conferência, de acordo com a secretária-executiva do FNRU, Regina Ferreira. “São grandes conquistas, resultado de um processo longo, iniciado há mais de 20 anos”, diz.
“Conseguimos aprovar as principais diretrizes de construção de um sistema de desenvolvimento urbano. São meios de integrar as políticas setoriais, as três esferas de governo e ainda criar uma instância de controle social das políticas públicas”, explica Regina. “Saímos daqui com condições de apresentar o projeto de lei que vai instituir esse sistema”, diz, e ressalva: “A partir de agora, cobraremos permanentemente para que as resoluções da Conferência tenham efetividade, sejam implementadas”.
Em quase 30 anos de militância, Dito reconhece o momento histórico, mas enxerga um contra-senso: “Conseguimos um arcabouço institucional muito importante, mas vimos uma piora nas condições de vida, principalmente nas periferias. Na prática, ainda não conseguimos melhorar a vida do povo”.
A vila City Jaraguá, no extremo noroeste da capital paulista, é um exemplo de como os movimentos sociais podem atuar na questão da moradia. A história das 180 casas, construídas em esquema de mutirão e auto-gestão, começou em 1999. Foram três anos de reuniões até que o primeiro tijolo fosse colocado, com recursos do Fundo Municipal de Habitação. Elaine Rosa, da União Estadual por Moradia Popular (ligado ao FNRU), coordenou o mutirão e descreve:
“De início, desconfiam, acham que é mais uma enganação. Nós trabalhamos orientando e mediando conflitos. Conforme a construção se materializa, dá para ver a transformação das pessoas. Este é o grande contraponto, a mudança de postura”.
Outro exemplo fica no Brás, bairro paulistano repleto de galpões e indústrias desativadas. A fachada do número 76 da rua Joaquim Carlos parece a de um prédio residencial convencional. Mas não é. Basta reparar na mobília do hall, uma mistura de peças cedidas pelos moradores, e nos avisos colados nas paredes, a convocar para mutirões e rifas. O clima é de uma grande comunidade.
As 92 famílias que ali vivem são do movimento Unificação das Lutas de Cortiço (ULC), que integra a União Nacional por Moradia Popular e o FNRU. O edifício foi conquistado a duras penas, depois de seis anos de negociação. Em 1999, o proprietário vendeu o prédio – inviável por causa da alta inadimplência – para o Programa de Arrendamento Residencial, do governo federal. O imóvel ficou abandonado e degradado. Somente em 2006 saiu o contrato de arrendamento e uma reforma financiada pela Caixa Econômica Federal o transformou em um lugar habitável.
Não existe síndico. Maria Aparecida Pontes, a dona Cida, é da comissão criada para discutir assuntos do condomínio e comemora: “Por meio da auto-gestão, conseguimos reformular o sistema de telefonia e de segurança. Também conscientizamos os moradores para que reutilizem água e poupem energia. As conversas têm surtido efeito”.
A limpeza do prédio também é resultado de esforço coletivo. “Todo final de semana, os moradores se revezam para fazer faxina nos corredores. Realizaremos outro mutirão para limpar a caixa d'água e economizaremos 500 reais”, explica Cida, que é vice-coordenadora do ULC.
Os residentes pagam cerca de 208 reais mensais (valor mínimo), mais o condomínio, 120 reais. Em 15 anos, serão proprietários do imóvel. Os apartamentos têm de 40 a 57 metros quadrados de área e custam de 32 mil reais a 39,8 mil reais, metade do valor de mercado.
Grande parte dos moradores trabalha no centro e tem renda familiar média de 1.200 reais. Há domésticas, recém-formados, cabeleireiros, professores, funcionários públicos. Luís Bezerra Silvério mora com a esposa e duas filhas, e trabalha como segurança. “Morar perto do emprego é uma beleza. Além disso, o dinheiro do aluguel nunca mais volta. Aqui, serei dono do meu canto.” Karl Marx da Silva, que divide o apartamento com a mulher e a filha, cita outra vantagem de morar ali: “Participo das reuniões, faço parte de um conjunto. É muito diferente de quando eu pagava aluguel. Era cada um por si, não havia a noção de coletividade.”
Quer em um edifício residencial, quer em uma conferência nacional, o desafio de transformar idéias em realidade sempre se impõe. Nabil Bonduki, arquiteto e urbanista, ex-vereador paulistano e um dos que participou da concepção que resultou no Ministério das Cidades, avalia positivamente o encontro em Brasília. E enxerga um desafio bem-vindo, e imenso, pela frente: “Vamos ver a real capacidade do Conselho das Cidades de assumir o papel e viabilizar a integração entre as políticas e os ministérios”.
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Phydia de Athayde
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quinta-feira, 29 de novembro de 2007
uma noite no Morumbi
(esta crônica foi publicada na edição 472 da CartaCapital, de 28/11/2007. O desfecho do jogo Brasil X Uruguai, dia 21, é conhecido. Aqui vai uma visão dos bastidores)
O dia da contramão
Phydia de Athayde
Congestionamento, é claro. Começa no trânsito parado a odisséia de qualquer um que tenha se aventurado ao Morumbi na noite da quarta-feira 21. Até o ônibus que leva a seleção brasileira ao estádio fica preso nas ruas entupidas de carros. Mas por pouco tempo, pois logo a polícia trata de abrir caminho. Pela contramão.
É que a seleção brasileira está prestes a enfrentar o Uruguai, nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, e nada pode sair errado. Uma espécie de contramão autorizada parece ser a regra neste primeiro jogo oficial depois de o Brasil ser confirmado como sede da Copa de 2014. E o estádio paulista esforça-se para mostrar que pode, ou poderá, ser um dos palcos da Copa.
Apesar da proibição de ambulantes, pela contramão compra-se cerveja. “Conseguimos duas latinhas por 5 reais”, diz Tatiane Camparin Raso, na porta do estádio. “Compramos escondidinho. No esquema brasileiro”, resume bem. Juliano, o marido, carrega um cartaz para pedir a escalação do goleiro são-paulino, Rogério Ceni, preterido por Dunga. “Mas, fora isso, o técnico está fazendo um bom trabalho”, diz, enquanto termina a cerveja. Dentro do estádio, a bebida é vendida apenas na versão sem álcool.
No tumulto da calçada, três alemães tentam vender um ingresso sobressalente. Em português sofrível, negociam com um cambista por 50 reais o bilhete que custou 80 e será revendido por 100. Um dos alemães, Wolfang, veio ao Morumbi pela primeira vez em 2001 e compara: “Não mudou nada de lá para cá. O estádio é bonito, mas é muito difícil de chegar, não tem metrô, informação, você é maltratado na rua”. Tudo isso pode mudar até 2014? Wolfang gargalha: “Eu espero”.
Do lado de dentro, o esforço para criar a ilusão de compatibilidade com as exigências internacionais produz discrepâncias que, em última análise, se aproximam ainda mais do Brasil real. Desigual. Um lugar onde o privilégio dos escolhidos convive com o infortúnio dos demais. De um lado, camarotes onde portadores de pulseirinhas “vip” entraram no estádio e bebem cerveja e chope (com álcool) de graça. De outro, os que pagaram o menor preço, 30 reais, para desfrutar da pior visão do campo. Não só pelo ângulo, baixo demais, mas pelo azar de terem ficado atrás da ambulância, que encobre a visão do gol.
“Ti-ra a am-bu-lân-cia! Ti-ra a am-bu-lân-cia”, pedem, em vão, pagantes como Chicão. “Não tenho condições de pagar pela arquibancada. Sabia que aqui era ruim, mas quis vir mesmo assim”, diz. Ao seu lado, o parceiro Arnan não esconde a decepção. “Não sabia que ia ter essa ambulância aqui, nem todos esses policiais, assim não vai dar pra invadir o campo”, lamenta o torcedor, que não disfarça ser um típico geraldino.
De repente, a turma da ambulância começa a ganhar bandeirinhas plásticas do Brasil, arremessadas por promoters do camarote. O pessoal gosta, levanta os braços, pede mais. Até que do meio da multidão vem um pedido que é também um desabafo: “Então joga uma cerveja, pô!”
Espremido entre os vips e a turma da ambulância há um diminuto espaço reservado à mídia impressa e aos sites. Não está sinalizado, e só a muito custo se chega ao local, batizado de “curralinho” pelos presentes. Longe de banheiros e sem bebedouros nem copos d’água por perto, é um canto improvisado com mesas de compensado e fios por todos os lados. Três radialistas uruguaios querem saber onde estão: “Buscamos o setor de imprensa e não o encontramos”. Ao serem informados que era ali, não disfarçam o assombro. “O jogo já vai começar, vamos ficar por aqui mesmo”, resigna-se Rodolfo Folle, da Radio Emissora Ciudad.
A poucos minutos do início da partida, apesar de lotado – e da arrecadação recorde no futebol brasileiro, de mais de 4,3 milhões de reais – o Morumbi não está em polvorosa. A torcida não canta, vai pouco além do fraco “Bra-sil, Bra-sil”.
Começa o jogo e o time brasileiro não faz por merecer mais que isso. O embolado nacional fica à espera de algum lance genial. É isso ou nada. E o gol uruguaio sai aos 8 minutos. Quando a seleção tenta seus ataques, o estádio acompanha numa histeria crescente, que dura apenas o tempo de o time perder novamente a bola.
Nos bastidores, outra contramão. Se um repórter precisa locomover-se dentro do estádio, é obrigado a sair e voltar por outro portão, já que os camarotes impedem a passagem pelo anel inferior. Depois de uma travessia por estacionamentos, bloqueios, escadas e túneis, alcançam-se as cadeiras cativas dos são-paulinos. Em meio a senhores de cabeça branca, três policiais militares, supostamente escalados para trabalhar, não fazem mais que assistir à partida. Na contramão de suas atribuições, e bem quietinhos.
“Senta aí, ô geraldino!”, escuta um desavisado que levantou. Em campo, o time brasileiro segue desorganizado. O Uruguai merece outro gol. Dunga é xingado, com aquele coro que ruboriza locutores como Galvão Bueno. Em seguida, os são-paulinos clamam por seu treinador: “É, Mu-ri-cy!” Os uruguaios fazem o goleiro Julio César trabalhar muito, até que Luís Fabiano marca para o Brasil. Fim do primeiro tempo. Retorna o coro que sugere a Dunga um passeio periclitante.
Se a arquibancada está chocha, os camarotes fervem. Vips correm para bancadas com cachorro-quente, sanduíche de carne louca, chafariz de chocolate derretido, massas, refrigerantes, cerveja, chope e caipirinha. O DJ toca axé music e um trio de dançarinas anima principalmente os homens. Entre eles, um enorme efetivo de policiais civis. De uniforme preto, coletes e símbolos do Garra e Deic, apesar da cara de Capitão Nascimento, não sabem se comem hot-dog, chupam picolé, tomam guaraná ou se fotografam as garotas com o celular.
Ainda há o segundo tempo. O time brasileiro segue mal, mas é premiado por outro gol de Luís Fabiano, que, na contramão, se torna o herói.
Antes do apagar das luzes, um show à parte na “zona mista”, local onde repórteres, fotógrafos e cinegrafistas aguardam a saída dos jogadores em jogos oficiais da Fifa. Novos curralinhos, agora estrategicamente colocados no estacionamento dos ônibus. Jornalistas disputam espaço com delegados, diretores, amigos-do-amigo e com garotas como Camila Borges e Elisa Samudio.
De salto fino, jeans e blusinha justíssima, elas chamam pelo nome todos os jogadores e os atraem para a beira do cercadinho. “A gente é amiga do Kia”, explicam a quem perguntar. Elisa, a morena, pede a um repórter: “Vai lá dentro e diz que tem duas mina gata aqui fora”. Kia é aquele, ex-Corinthians, ligado à máfia russa.
O frenesi é interrompido quando o ônibus da delegação uruguaia irrompe em plena “zona mista” e bloqueia a visão da saída do vestiário. Na manobra, o teto do veículo escora e quase rompe uma tubulação do teto do estádio. Era melhor ter entrado na contramão.
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Phydia de Athayde
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sexta-feira, 23 de novembro de 2007
ONG ou não-ONG?
(publiquei essa entrevista como parte de uma reportagem maior sobre a CPI das ONGs. Saiu na edição 470 da CartaCapital, de 14/11/2007. Acho legal reproduzir porque dá uma esclarecida importante no que é, ou deveria ser, ONG e as diferencia das "fábricas de receber dinheiro público", que se escondem sob o mesmo rótulo)
Universo caudaloso
Para a Abong, uma ONG deve ter compromisso com a luta por direitos
Apesar do nome, Associação Brasileira das Organizações não Governamentais (Abong) tem 270 integrantes e representa menos de 1% das mais de 276 mil ONGs do País. Isso se dá porque a associação usa critérios conceituais para aceitar filiadas. “Para nós, ONG é uma entidade envolvida na luta por direitos”, delineia Tatiana Dahmer, uma das diretoras-executivas da associação. Na entrevista a seguir, ela esclarece as diferenças entre entidades que recebem dinheiro público, fala de conceitos e nuances Terceiro Setor.
(a Phydia de Athayde)
CartaCapital: Por que tanta confusão em torno do que é uma ONG?
Tatiana Dahmer: Há um desconhecimento generalizado. ONG é, na verdade, um termo político. Dentro do nicho das entidades sem fins lucrativos podem existir fundações, associações e associações religiosas. Uma tentativa de definição resultou nas Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs), que diferem das ONGs por permitir a remuneração de diretores. Mas toda a legislação a respeito é antiga e contraditória, enquanto há diversos projetos de leis não votados.
CC: A situação atual, de repasses milionários sem controle, é fruto do crescimento do Terceiro Setor. Como isso se deu?
TD: Todo o debate sobre Terceiro Setor vem de um viés liberal norte-americano, que parte do princípio de estado mínimo. A Abong surgiu em 1990 para construir a identidade das ONG. Na nossa concepção, ONG não é caridade, não é marketing social, não tem que fazer o papel do estado. Defendemos, por exemplo, que o Instituto Nacional do Câncer tenha condições de cuidar de crianças, sem depender da Fundação Ronald McDonalds. Para a Abong, ONGs são associações civis envolvidas na luta por direitos.
CC: O que origina o descontrole de verbas públicas?
TD: Há a questão da falta de identidade das ONGs, e há o problema concreto do mau uso. Existe muita má-fé. Este é um universo caudaloso, e por isso não se pode generalizar. Imagine que há pelo menos 9 formas de repasse de dinheiro para a sociedade, e todas podem ser burladas.
CC: Como deve ser a relação do estado com as ONGs?
TD: ONG não tem que executar política pública. Se o estado tem problemas, pode usar uma ONG como modelo de política pública, e não simplesmente se eximir da responsabilidade e passá-la para a ONG. A Abong defende que os conselhos de políticas públicas funcionem. Há um debate importante sobre modelo de desenvolvimento que deve ser feito. A matriz do problema é não se discutir a distribuição de recursos públicos.
CC: O que esperar da CPI das ONGs?
TD: As denúncias têm de ser apuradas. Mas é preciso diferenciar má-fé de irregularidade por conta do excesso de burocratização e de particularidades regionais, como, por exemplo, o fato de um barqueiro na floresta não tem CNPJ. Hoje somente ONGs com ampla estrutura contábil alcançam os recursos públicos. É importante que se construa uma regulação que trate organizações de tipos e portes diferentes. E é fundamental não criminalizar as ONGs. A regulação tem de ser sobre o dinheiro público, e não sobre o direito constitucional da sociedade civil se organizar.
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Phydia de Athayde
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Entre a fé e o mé
(mais uma Brasiliana. Esta, da edição 428 da CartaCapital, de janeiro deste ano. Também poderia se chamar "Entre a birita e a bênção"...)
Entre a fé e o mé
por Phydia de Athayde
Um boteco, uma igreja, um boteco, uma igreja. Um boteco, umas casinhas amontoadas, uma igreja. A disposição de estabelecimentos nas ruas estreitas, de cacos de asfalto e terra, da periferia de São Paulo, assim pode ser resumida.
Doses alternadas de pinga e de encontros religiosos são oferecidas facilmente em qualquer fim de tarde da zona sul da cidade. A poucos metros da Linha Lilás do Metrô (curiosamente a única sem ligação com nenhuma das demais) ficam o Jardim São Roque e o Parque Arariba, bairros que se misturam e se parecem.
Uma filial da Igreja Internacional da Graça de Deus divide parede com um boteco, sem nome, como todos por ali. Na igreja, é dia de “aconselhamento para a vida sentimental”. No boteco, uma voluptuosa mulher de minishort, feita de papelão em tamanho real, convida o passante a tomar uma cerveja.
Lindaura Ferreira Alves, de 50 anos, está ao lado da igreja. Duas Bíblias em punho, ela freqüenta a Boas Novas da Salvação, que também fica por perto. Lindaura passou a tarde no Jardim São Luiz, bairro próximo, em campanha. “Campanha é orar pelos necessitados, tirar a palavra, louvar”, explica. Joana Helena Santiago, de 44 anos, é sua “irmã no Cristo Jesus”, ou seja, é sua amiga. Bíblia em punho, fala de igrejas que freqüentou:
– Antes eu ia na Aprisco de Deus. Mas lá não tinha fiel, ficou fraca e eles se mudaram. Então fui para a Boas Novas da Salvação. Prefiro estar na igreja do que ficar olhando certas coisas do lado de fora. Prefiro louvar a Deus. A gente não vê, mas sente a presença dele.
O lado de fora da igreja significa a rua e, muitas vezes, o boteco. Em quantidade, a oferta de botequins é bem maior do que a de igrejas.
– Tenho um irmão que bebe, bebe muito. A gente ora pra Jesus ter misericórdia dele. O Senhor tirou meu marido do boteco, já tem quatro anos que ele está na presença do Senhor – comemora uma sorridente Joana.
Na rua de cima, a imponente arquitetura da Assembléia de Deus traz lembranças a Carlos Eduardo da Silva, de 17 anos. Por imposição familiar, ele freqüentou a casa por três anos. Hoje, se diz ateu, mas considera Jesus “um cara muito inteligente”:
– Minha irmã é evangélica e me obrigava a vir, ela falou que eu ia ganhar uma camiseta. Não ganhei camiseta, ganhei uma Bíblia. ...Engraçado que só na minha rua tem três igrejas, uma do lado da outra. Por que elas não se juntam pra ajudar as pessoas, pra melhorar a rua? Cada uma só quer tirar os fiéis da outra.
Perto dali, uma mesma parede separa outra igreja de outro boteco. A filial Arariba da Renascer em Cristo está fechada. Pendurado no portão, um apelo aos fiéis: “Doe latinhas e cartuchos de impressoras”. Por ali qualquer um sabe que 60 latinhas de alumínio completam um quilo, e que um quilo é vendido por 3 reais. Curioso pensar que os fundadores da Renascer, acusados de lavagem de dinheiro no Brasil, foram presos nos EUA e tiveram seus bens, que incluem mansões e carros de luxo, bloqueados pela Justiça de Miami.
Do lado de cá da parede, o boteco do Juarez está aberto. Entre os clientes, Francisco Eduardo, copo de cerveja em punho, toma a palavra:
– Passou do tempo dessa igreja sair daqui! É empapuçado esse som que eles fazem. Se você está conversando e começa a bateria, pode até gritar que o outro não vai te ouvir. É guitarra e bateria, lá em cima. Também tem uma mulher que tem um peito pra falar. Ela fala alto pra caramba!
Juarez abriu o boteco há dez anos. Ao lado, onde hoje fica a Renascer, funcionava uma adega distribuidora de bebidas. “Daqui só saía 51”, garante Francisco, morador do bairro há 28 anos. Juarez diz que, com a igreja, ganhou uns poucos clientes, ocasionais:
– Se o marido não é crente, ele vem, larga o pessoal lá tomando refrigerante e passa aqui pra tomar um negócio, escondidinho.
Francisco continua reclamando do barulho “empapuçado” dos cultos. Ele ainda está com a roupa de serviço. Suas mãos de dedos grossos, ressecadas de cal, confirmam. Francisco é pedreiro. Um pedreiro muito fiel:
– Ah, aqui é meu ponto. Todo dia passo aqui. Saio da obra às 5h30 e venho pra cá. Quando fecha, às 9, vou pra casa.
Religiosamente.
Cai a tarde. Pela rua, de banho tomado e cabelos ainda úmidos, caminha Vera Lúcia Mendonça, de 30 anos. Ela não carrega Bíblia. Despede-se do marido – que está de terno e gravata, na frente de uma casinha de alvenaria amontoada, como todas da rua – e segue para a Assembléia de Deus Mundial da Fé. Vera explica que ele vai pregar em uma outra igreja:
– Nessa, eu estou começando a ir agora. Sou obreira da casa do Senhor, missionária, pela misericórdia de Deus. Vou dirigir o culto hoje.
São quase 7h30, hora do culto. Vera cumprimenta o pastor, Javas Araújo, que a espera na porta da igreja. Rapidamente se despede e caminha até o fundo da pequena casa para se preparar. De longe, pode-se ouvi-la orando, em voz alta.
Enquanto isso, o pastor aproveita para exibir, orgulhoso, alguns atrativos da igreja. Do lado do altar há uma caixa de papelão com os dizeres: “Quebra de Maldição”. O pastor explica tratar-se de uma campanha e diz que, ali, os fiéis depositam bilhetes, cartinhas e pedidos de proteção. Ele também aponta para uma armação de metal, com quase 2 metros de altura, que suporta um pano branco. É a “Portas Abertas”:
– Essa é outra campanha. A porta fica no meio da igreja e no final do culto os fiéis passam por ela, recebem a unção, saem abençoados.
Não muito distante dali, outro culto está acontecendo. Em volta da mesa de bilhar, “Bizinho”, “Wandipe”, “Lãozinho” e “Coxinha” cumprem o ritual diário de tomar cerveja e disputar partidas. Sempre no mesmo boteco, sempre na mesma hora. Ivanildo de Oliveira e Silva, de 26 anos, é quem cuida do estabelecimento, que, à sua maneira, não deixa de ser um templo. Ivanildo é pernambucano. Veio para São Paulo aos 18 anos, depois que tomou dois tiros e ficou paraplégico, para fazer reabilitação na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD):
– Arrumei minha vida, voltei a estudar, foi bom demais. Agora gosto de cuidar do bar porque faço amizade, é uma psicologia pra mim, me distraio um pouco e esqueço dos problemas.
Ivanildo faz questão de mencionar que namora, há quatro meses, com Roselene. Convidado a falar de sua fé, diz que deixou de ser católico quando ficou paraplégico. Rindo de si mesmo, avalia:
– Agora eu sou um crente chato. Não saio pregando, mas leio muito a Bíblia. Tenho uma aqui comigo, leio quando o bar está vazio. Mas sou aquele crente meio xarope, que bebe e fuma, né?
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Phydia de Athayde
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terça-feira, 13 de novembro de 2007
Minutos de sabedoria
(publiquei esse texto na edição 439 da CartaCapital, de 11/04/07. ...É sobre uma dessas pessoas que dá gosto conhecer. Que nos fazem repensar coisas básicas da vida. Como o tempo)
Minutos de sabedoria
por Phydia de Athayde
16h35. De fora, não se diz o que é. A porta espremida entre o 2.892 e o 2.890 da rua Augusta, cercada por samambaias, jibóias e orquídeas, faz pensar em floricultura. Um passo à frente e as plantas cedem espaço a uma variedade de relógios pregados na parede esquerda. Clássicos, modernos, kitsch, todos meio empoeirados. Também não é uma loja. Outro passo e, ao fundo, um senhor sentado em frente a uma mesa de ourives tirará a lupa de encaixe do olho direito e erguerá o rosto para ver quem chega. Lin Chun Long, de 54 anos, o relojoeiro mais tradicional do bairro.
16h43. Além dele, dois senhores, uma senhora e um cachorro. Pierre, o jack russell terrier, fuça os vasos de plantas. O dono, o tarólogo e terapeuta energético Teruo Yamada, 42 anos, acaba de trazer um café para o senhor Lin. “Carioca e sem açúcar, do jeito que ele gosta.” Teruo conhece Lin há mais de uma década, quando sua loja ficava na Galeria Ouro Fino, mais acima na mesma rua. “Somos amigos, é um encontro de almas”, orgulha-se. “Ele resolve tudo. Hoje eu vim para acertar meus relógios digitais.” Todos os dias, o dia todo, as duas cadeiras e os dois banquinhos ao lado da mesa estão ocupados por clientes. Muitos, como Teruo, tornaram-se amigos. Passam para conversar, dar um “oi”, oferecer um café ou uma água. E até trazer relógios.
16h54. Maria Sena, copeira da joalheria H.Stern, está de saída. Ela leva de volta o relógio de uma cliente e ganha um beijo de Lin. Ele trata a todos pelo nome, que sabe de cor. Centenas. Quando saiu de Taiwan aos 25 anos, falava apenas mandarim.
17h11. Uma senhora elegante, óculos de lentes azul-claras, acaba de entrar. Dona Fany anuncia o que trouxe, uma pulseira-relógio e “aquele ancião”, o Seiko que usa há duas décadas. Enquanto Lin habilmente troca as baterias, eles mantêm um diálogo tranqüilo, de velhos amigos:
– Tudo bem com a senhora?
– Graças a Deus, por enquanto estamos conseguindo andar.
– A gente precisa de tão pouquinho...
– ...para ser feliz.
– É isso. Quanto mais simples, melhor. ...Que horas o alarme? Seis?
– Seis e meia.
17h21. Relógio acertado. Doze reais. Antes de partir, dona Fany abre um sorriso ao falar do amigo: “Ele vai viver uns 300 anos, é a pessoa mais tranqüila que conheço”. Pouco depois, o próprio dá um exemplo de como ser zen. Lin aponta a entrada da loja, sem nenhuma placa indicativa, e explica, com sotaque que 28 anos de Brasil não tiraram:
– Fiz de propósito. Essa fachada é antiestresse. Esse é o volume que dou conta, só dos amigos. Senão, não dá conta.
17h44. Mal termina a frase, atende o telefone: “Hai!” Enquanto conversa com uma das filhas, em mandarim, arruma o troco para outra cliente. Além de uma nota de dez, devolve um real em moedas cuidadosamente acomodadas em um minúsculo saquinho plástico.
17h46. Lin sabe a localização exata de todos os itens que superlotam a pequena mesa de trabalho. “Quem magoar o Lin vai se ver comigo”, diz um bilhete colado à luminária. Enquanto conversa, não precisa de mais de cinco segundos para achar uma correia, uma bateria, um pino. Nunca perde de vista quem entra ou sai da loja. Um rapaz o cumprimenta: “Beleza?”, “Pura”, ele responde. Além de tratar a todos pelo nome, sempre sabe o que cada um veio buscar.
18h01. Em outro raro intervalo, Lin retoma a conversa. Aos 22 anos, depois de servir no exército, decidiu deixar Taiwan para “aventurar-se no mundo”. Ao comunicar ao pai a decisão, ouviu a frase que determinaria seu futuro: “Se você quer partir, tem de aprender uma profissão que caiba numa maleta”.
O jovem vagou pelas ruas de Taiwan até encontrar no ofício de relojoeiro os quesitos “mínima ferramenta, mínimo espaço” de que precisava. Passou três anos como aprendiz. Trabalhou em troca do almoço, até dominar a técnica. Estava pronto. Porém, um mês antes do embarque, por artimanha do destino, apaixonou-se.
“Eu sou maluco, viu?”, avisa antes de prosseguir. De malas prontas, tomou coragem e pediu a mão da esposa, cujo nome brasileiro é Suzana. Noivo, partiu para o mundo. Passou alguns meses no Japão e no Canadá, e chegou a Buenos Aires em 1978. A futura mulher o encontraria seis meses depois. “Só namorei depois do casamento”, conta ele.
Na capital portenha, Lin “hablava mucho” castelhano, mas confessa que sofria por não se comunicar direito. Outro problema era a economia, de inflação galopante, que prejudicava o negócio dele e da irmã. Relógios, ela no balcão, ele na assistência técnica. O ofício de relojoeiro, ao contrário das línguas e das economias, é perene. “Muda só design, técnica é a mesma”, diz.
Sem planos anteriores, veio parar em São Paulo. Um grupo de chineses viajaria ao Brasil e um casal havia desistido. Lin e a esposa ficaram com as vagas. Desembarcaram na Liberdade, tradicional reduto oriental na capital paulista. “Gostei. Achei o povo mais simpático, a colônia era grande, a economia boa. Voltei a Buenos Aires, arrumei tudo e em uma semana estava aqui.”
Lin instalou-se na Liberdade e começou a freqüentar aulas noturnas de português. De dia, dividia com um conterrâneo o espaço na Galeria Ouro Fino, na Augusta. No Brasil nasceram as duas filhas, Juliana e Luana, cuja foto ele exibe na parede da loja. Anos depois, Lin trocou o bairro da Liberdade e foi morar na Saúde, movimento feito por muitos imigrantes orientais. Nunca saiu da rua Augusta.
18h38. Cai a tarde. O movimento, enfim, arrefece. Em um espaço de apenas duas horas, 14 clientes procuraram mister Lin. Outros tantos, da calçada, acenaram para ele. Todos saíram com um sorriso, muitos com um relógio consertado, embora esta não fosse a principal razão da visita.
18h43. Já é hora de fechar? Mais uma surpresa, ou melhor, uma lição:
– Eu não tenho hora para nada. Eu nem uso relógio. Meu trabalho é funcionar relógio. Eu não vivo em função de relógio.
19h41. É noite, a lojinha de Lin está fechada. Sobre a porta de aço, uma imagem pintada. Em um fundo alaranjado, um bonequinho de chapéu chinês faz um “t” com as mãos. Abaixo, lê-se a mensagem de Lin para o mundo: “Dá um tempo”.
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Phydia de Athayde
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